segunda-feira, 14 de junho de 2010

DEAI

A noção(1) de DEAI é uma das noções fundamentais do Aikido. O meu interesse por esta noção levou-me a fazer um pequeno estudo etimológico dos caracteres que a representam.
DEAI significa encontro. O caracter para AI , é já nosso conhecido pois é o mesmo que aparece na palavra AIKIDO. O caracter para AI é composto pelos seguintes radicais: , e . O primeiro (hito) significa homem, o segundo (ichi) significa unidade e o terceiro (kuchi) significa boca. À "letra" significa “homens que falam a uma só boca”, isto é, consonância.
"DE", de DEAI, representa-se pelo caracter , que em chinês se lê Shutsu, significando "nascido de...", "aparecer de...", "emergir de...". Em Japonês, na sua forma verbal significa emergir, aparecer, originar, expirar; na sua forma substantiva significa origem e nascimento.
Se quisermos ir mais longe no estudo deste caracter devemos decompô-lo nos seus radicais. DE , é composto por dois radicais: e , aparecendo o primeiro duas vezes. O primeiro radical tem o nome de Ukebaku, isto é, "caixa aberta". Ao repetir-se, este radical exprime a ideia de dois espaços abertos que se encontram. O segundo radical tem o nome de Bo e significa pau, bastão, linha e exprime a ideia de verticalidade(2). Esta última ideia deve ter sido sugerida pela imagem da árvore que cresce verticalmente assim como pelo bastão que permite ao idoso manter a postura vertical - aquele que se aproxima da morte procura ainda um sopro de vida apoiando-se no bastão.
Se nos lembrarmos que a grande metáfora do oriente para a vida harmoniosa é precisamente a da árvore que se enraíza profundamente na Terra e cresce verticalmente na direcção do Céu, passamos a outra noção importante do Aikido: a de Ten-Chi(3) (Ten - Céu, Chi - Terra).

DE , não exprime a ideia do nascimento ou emergência da vida em termos puramente biológicos.A repetição do radical Ukebaku, , remete-nos para uma noção mais profunda de nascimento. A ideia de que a condição para que algo de vertical, possa ter origem, nascer, emergir... é a existência de dois espaços abertos. Esta ideia de abertura é reforçada pelo caracter , Ai - harmonia.

DEAI significa encontro, mas que encontro? No Aikido normalmente duas pessoas encontram-se frente a frente. Este encontro dá-se num ponto, num lugar, num espaço; dá-se ainda num determinado momento, ou, para sermos mais correctos, "num espaço de tempo", logo no espaço e no tempo. Todos nós nos apercebemos da dimensão psicológica, senão existencial do tempo. Um Aikidoca sabe como o tempo é marcado pelo grau de agitação ou serenidade mental que mantém nesse encontro. Isto por si só mostra como a ideia de DEAI não se resume a um mero encontro ou contacto físico mas remete para as pessoas enquanto totalidades.

O verdadeiro encontro do Aikido não é destruir mas fazer nascer. O verdadeiro encontro consiste em encontrar o sopro vivificador e isto só é possível para quem se apresenta no presente como espaço aberto. Só esta abertura permite a respiração harmoniosa: a inspiração profunda e livre que prepara a expiração forte e segura. Daí que este caracter signifique ainda expirar.
Esta associação entre nascimento e expiração encontramo-la também na Bíblia a propósito da criação do homem: Deus cria o homem pelo seu sopro.
A ideia do mal, da brutalidade e da violência são expressas na escrita japonesa também com base no radical Ukebaku , mas desta vez ele não aparece como um espaço aberto associado a outro espaço igualmente aberto. Agora a própria ideia de abertura desaparece. A caixa aberta dá agora lugar a uma caixa repleta Kyo. O encontro é o de dois sabres que se cruzam.


(1) A rigor DEAI não é uma noção mas algo para ser vivido e praticado. Utilizamos no entanto o termo "noção" à falta
de melhor.
(2) Não será de pensar a própria prática de Aikido com Jo (bastão), à luz desta ideia?
(3) Ten-Chi: nome de uma projecção de Aikido.

fonte
Artigo de: Manuel Galrinho
http://www.aikideai.com/article.php?sid=32

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Fudoshin e Zanshin: Elementos Psicológicos do Budo

por Brett Denison
Tradução - Jaqueline Sá Freire (Instituto Takemussu - Hikari Dojo – Rio de Janeiro)

Fudoshin é um dos princípios do budo e se refere a um estado mental que é impenetrável e imóvel. Neste caso, “imóvel” requer algumas explicações, pois é usado no contexto filosófico japonês e assim tem um sentido mais elevado do que se esperaria ao associar ao significado da palavra em outra língua. Fudoshin não indica um estado mental inflexível, mas, sim, aponta para uma condição mental que não é facilmente transtornada por pensamentos internos ou por fatores externos. “Esta mente que permanece não agitada e calma é imperturbável, não apegada e livre... é a mente máxima do mestre, adquirida apenas através de rigoroso treinamento, e igualmente rigorosa investigação da mente e pelo forjar do espírito (seishin tanren, em japonês) através da confrontação e vitória sobre nossos próprios medos e fraquezas” Fudoshin é diretamente relacionado com outro conceito Japonês conhecido como zanshin, ou "mente continua".

O Zanshin se refere a um estado de constante e contínua atenção ou estado de alerta. O Zanshin se aplica a sua atenção ao mundo à sua volta. Você percebe as pessoas à sua volta, como elas se movem, como ficam de pé, o que há em seus olhos, porque você precisa estar preparado para interagir com elas. Você está presente neste momento. Uma grande parte do reigi, ou "métodos de respeito" no budo, particularmente as reverências (de pé e na posição sentada) e outras formas de etiqueta foram criadas com o zanshin em mente. Em um contexto marcial, imobilidade e continuidade se referem a um estado de alerta mental em que a mente não está fixada em coisa alguma. Como a mente é receptiva e atenta, mesmo que não fixada conscientemente em alguma coisa em particular, não existem pontos fracos mentais ou suki ("brechas"). Os conceitos espirituais japoneses podem ser um “quebra-cabeças” e normalmente são conectados como parte de vários conceitos. Por isso, explicarei mais detalhadamente.

Se eu tenho tres objetos na minha frente e enfoco minha atenção em só um, minha concentração estará afastada dos outros dois. E assim, em relação aos outros dois objetos, eu criei um suki, ou uma ausência de foco. Se qualquer um destes objetos fosse um atacante, eu estaria completamente vulnerável. Mas se você disser, ok, tudo o que temos que fazer é focalizar todos eles, você estaria parcialmente certo. Mas, como com tudo o que é japonês, não é tão simples. O segredo escondido é que devemos focalizar todos eles sem focalizar nenhum deles. Às vezes isso é chamado de mushin, ou "não mente". Este conceito, que sustenta o do fudoshin, pode ser difícil de ser compreendido por ocidentais. A “não mente” se refere a um foco que é mais intuitivo que consciente. Isso significa confiar em seus instintos mais do que se empenhar em um processo consciente de pensamento. Os ocidentais podem chamar isso de “estar na área”. Os japoneses podem chamar isso de “estar no momento presente”.

No budo, criar este estado de confiança intuitiva e maturidade interior requer muitos anos de prática (keiko), em alguns casos a prática de exercícios de respiração meditativa (kokyu ho) e disciplina austera física/espiritual (shugyo). Todos estes elementos, que são parte do budo, lentamente afastam a mente do diálogo mental interno e das censuras (de análise e justificação) e começam a permitir a mente que confie em seus sinais intuitivos ou em sua natureza superior. Em mushin, a mente deixa de ser facilmente perturbada ou reativa em excesso. Ela é fudo ("imóvel") e não são criados suki ("brechas") ou quebras do foco. Este estado é muito claro ao se observar um experiente budoka praticando um kata. Apesar de estar totalmente atento à forma, ele não opera a partir de um processo consciente de pensamento. O kata foi praticado milhares de vezes, e o praticante desenvolveu uma confiança natural em sua habilidade. De certa forma, não há nada para se pensar. Talvez seja um tanto como o slogan da Nike: "Just Do It" (“apenas faça”).

Em resumo, a mente, não estando presa a coisa nenhuma, é forte, concentrada e receptiva a todas as coisas. Certamente Fudoshin não existe somente para as artes marciais. Pelo contrário, esta confiança e calma intuitivas podem ser usadas antes e durante uma reunião importante, em uma entrevista, uma prova, ou em qualquer circunstância em se seja necessária calma e um foco intensificado. Com uma prática consistente e disciplinada, o fudoshin pode se tornar um estado mental natural, confortável e produtivo.

artigo retirado do site htt://www.aikikai.org.br

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Os cinco espíritos do Budo

Shoshin: (初心) Mente de principiante
Zanshin: (残心) Mente que permanece
Mushin: (無心) Não Mente
Fudoshin: (不動心) Mente Imóvel
Senshin: (先心) Espírito Purificado; atitude iluminada

Existem 5 mentes fundamentais ou espíritos do budo; shoshin, zanshin, mushin, fudoshin, e senshin. Estes conceitos muito antigos são geralmente ignorados nos dojo modernos de aikido. O budoka que se esforça para compreender as lições destes 5 espíritos em seu coração amadurecerá para se tornar um artista marcial e um ser humano forte e competente. O aluno que não se esforça para conhecer e receber estes espíritos sempre terá uma falha em seu treinamento.

Shoshin

O estado de shoshin é aquele da mente de principiante. É um estado de atenção que permanece sempre completamente consciente, atento e preparado para ver coisas pela primeira vez. A atitude de shoshin é essencial para continuar o aprendizado. O-Sensei uma vez disse, “Não espere que eu lhe ensine. Você deve roubar as técnicas sozinho”. O aluno deve ter um papel ativo em cada aula, observando com a mente shoshin, para conseguir roubar a lição de cada dia.

Zanshin

O espírito de zanshin é o estado do espírito que permanece, que continua. É frequentemente descrito como um estado continuado de atenção aumentada e de decisão. Mas o verdadeiro zanshin é um estado de foco ou concentração antes, durante e depois da execução de uma técnica, em que uma ligação ou conexão entre o uke e o nage é mantida. Zanshin é o estado da mente que nos permite permanecer espiritualmente conectados, não apenas a um único atacante, mas a múltiplos atacantes e mesmo a um contexto completo; um espaço, um tempo, um evento.

Mushin

O manual da ASU define mushin como a “Não mente, uma mente sem ego. Uma mente como um espelho que reflete e não julga”. O termo original era “mushin no shin”, que significa “mente da não mente.” É um estado mental sem medo, raiva ou ansiedade. Mushin é frequentemente descrito pela frase, “mizu no kokoro”, que significa “mente como a água”. Esta frase é uma metáfora que descreve o lago que reflete claramente o que o cerca quando suas águas estão calmas, mas as imagens são obscurecidas quando uma pedra é jogada em suas águas.

Fudoshin

Uma mente que não é abalada e um espírito que não se move é o estado de fudoshin. É a coragem e a estabilidade demonstradas mentalmente e fisicamente. Mas ao invés de indicar rigidez e inflexibilidade, fudoshin descreve uma condição que não é facilmente transtornada por pensamentos internos ou por forças externas. É capaz de receber um ataque forte e manter a postura e o equilíbrio. Recebe e devolve com leveza, está firmemente aterrado, e reflete a agressão de volta à sua fonte.

Senshin

Senshin é o espírito que transcende os primeiros quatro estados da mente. É um espírito que protege e se harmoniza com o universo. Senshin é um espírito de compaixão que abraça e serve a toda a humanidade e cuja função é reconciliar e dissipar a discórdia no mundo. Ele considera que todos os tipos de vida são sagrados. É e mente de Buda e é a percepção de O-Sensei da função do aikido.

Aceitar completamente o senshin é essencialmente a mesma coisa que se tornar iluminado, e pode ir muito além da abrangência do treinamento diário do aikido. Entretanto, os primeiros 4 espíritos são provavelmente atingíveis por qualquer aluno sério através de atenção concentrada e treinamento firme. Abraçar estes estados da mente pode ser recompensador de diversas formas.

Shoshin pode libertar um aluno do “vale” frustrante do aprendizado, dando-lhe a visão para enxergar o que ele não poderia ver antes. Zanshin pode aumentar a atenção total, melhorando o treinamento de randori e de estilo livre. Mushin pode liberar a ansiedade do aluno quando está sob pressão, capacitando-o para uma performance melhor durante um exame. Fudoshin, pode lhe dar a confiança para proteger seu território em face de ataques físicos esmagadores. O aikidoka sério deve encontrar formas de incorporar estes espíritos do budo em seu treinamento diário.
Por Dan Penrod – 27 de Agosto de 2006
http://www.budodojo.com/FiveSpiritsOfBudo.htm
Tradução - Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai - Hikari Dojo – Rio de Janeiro)

domingo, 23 de maio de 2010

O Mestre e o Discípulo


Quem leu o livro sobre o grande samurai Miyamoto Musashi pode lembrar de seus embates marciais com seu discípulo Jotaro, que era invariavelmente derrotado. Porém Jotaro sempre retomava o embate e dizia que um dia iria vencer o grande mestre. Musashi perderia para Jotaro se ele um dia se tornaria melhor do que ele no uso da espada e por isso iria vencê-lo? E Jotaro respondia dentro de sua simplicidade que como ambos estavam envelhecendo e era era muito mais novo, chegaria o dia em que Musashi estaria mais velho e ele -Jotaro - no auge de sua forma física e então suas chances de vitória seriam potencialmente maiores.
Menciono essa passagem para falar sobre o grande mito Mestre x Discípulo. Alguns entendem que o mestre nunca poderá ser superado pelo discípulo e que esse – discípulo - nunca terá o pleno alcance de seus emblemáticos conhecimentos.
Entendo que cabe ao discípulo, até como forma de reconhecimento e gratidão, tentar sempre superar o mestre, instigando-o a estar atendo, buscando seu crescimento e aperfeiçoamento marcial. Cabe ao mestre, por sua vez, entender a ânsia por conhecimentos de seu discípulo, entender, por vezes, seu pouco preparo, sua imaturidade.
Ser mestre significa, também, encorajar seu discípulo para que ele cresça, se fortaleça e, porque não dizer, venha a superá-lo em algum momento.
Quando o discípulo supera o mestre aí completa-se, verdadeiramente, o ciclo. O mestre entende que ensinou tudo que podia e que o discípulo acrescentou aos conhecimentos suas próprias virtudes e sua exclusiva forma de se expressar marcialmente. É um momento mágico, um rito de passagem que transformará o discípulo em mestre sem, contudo, perder a referência ou mesmo o respeito ao seu mestre.
Escrevo sobre esse tema para expor meu pensamento, mas também para salientar a forma generosa e corajosa como meu mestre Carlos Sensei encara sua responsabilidade dentro do Aikido. Generosa porque não impede que seus alunos alcancem maiores graus e responsabilidades e corajosa porque entende que o seu papel é ser referência para quem está vindo e que o papel do verdadeiro discípulo é buscar o conhecimento, absorvendo o que o mestre tem a mostrar.
Vemos, no caminho das artes marciais, “mestres” que impedem seus alunos de crescer, de atingirem níveis e graduações por, ao final, estarem temerosos de seus “postos” e “cargos”.
Parabenizo meu mestre Carlos Sensei por possuir o entendimento maior de que deve exigir de seus alunos cada vez mais, dentro de suas possibilidades, ao mesmo tempo em que concede espaço para que os mesmos cresçam e atinjam suas metas, galgando seus degraus e encontrando seus próprios espaços.


Zilmor Lima de Oliveira Filho
Professor do Kawai Shihan Dojo
3º grau fundação Aikikai do Japão

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Reflexão

Cuidado para não ser como aqueles que nunca treinam o suficiente e se tornam "mestres", porque eles falam como experts.Em tempos antigos,estes homens eram chamados de "kuchi bushi". Um termo pejorativo escrito em caracteres que significam kuchi-boca e buchi guerreiro. Nestes dias
estes "guerreiros de boca" são comuns e se proliferam como as areias das praias.

domingo, 2 de maio de 2010

Yudansha - Faixa Preta

         " O título de Yudansha (Faixa Preta) é concedido por várias razões, não apenas por habilidades técnicas. Só porque uma pessoa recebe um certo ranking de Yudansha, não significa que ele ou ela conseguiram o respectivo nível de habilidade naquele momento. Significa que eu sinto que a pessoa está no limiar e crescerá naquele nível com a pressão da responsabilidade que adquiriu" (Escrito por Sensei Mitsugi Saotome)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Encontro Paranaense de Aikido, em maio de 2010

Encontro Paranaense de Aikido nos dias 22 e 23 de maio, valor do investimento é de R$ 50,00 com direito a camiseta, adesivo e emblema do encontro.

Cronograma do evento

E.A.P - Encontro de Aikido do Paraná

Dia 22 de Maio - sábado

Manhã
10:00 - Abertura
10:30 - Aula / Sensei Márcio Strozzi - União da Vitória
11:00 - Aula/ Sensei Gilberto Marecos - Shugyo Curitiba
11:30 - Sensei Carlos Grisalt - Aikido Kawai Shihan Dojo Florianópolis/SC - (convidado)
Tarde
14:30 - Aula / Sensei Edson Marchini - Maringá
15:00 - Aula / Sensei Italo Fioravanti - Umuarama
15:30 - Sensei Matias Oliveira - Academia Central/SP - (convidado)
16:00 - Aula / Sensei Carlos Augusto - Londrina
16:30 - Sensei Valdecir Fornazier - Vale do Itajai/SC - (convidado)
17:00 horas - Sensei Rodolfo Reolon - Aikido Paraná

Dia 23 de Maio - domingo

Manhã
08:00 horas - Exames de classes (Kyus)