quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A ORIGEM DO CONCEITO DE BUSHIDÔ E BUDÔ PARTE I


A ética e o espírito marciais, com que o Japão é identificado em todo a mundo (ainda que de modo simplista e estereotipado), estão na base do complexo sistema de normas de comportamento que é o bushidô. O termo designa a via, o caminho (dô) do bushi, o guerreiro de origem nobre. Com nome de bushi eram indicados os guerreiros na tradição feudal, enquanto o samurai – termo mais conhecido no Ocidente - era o guerreiro comprometido pelo dever de vassalagem para com o nobre feudal .
Uma determinação mais precisa das qualidades físicas e morais que deveria ter um bushi só emergiu ao fim dos tumultuosos séculos atravessados por guerras contínuas e lutas internas, no seio do Japão. Só com o período Tokugawa (1603-1868) e com a pacificação do Arquipélago, o bushi inicia uma consciente reflexão sobre si mesmo, sobre seu papel e suas motivações; antes os esforços eram voltados a uma direção bastante pratica. Eliminadas as necessidades da guerra, tendo mais tempo para se dedicar ao cultivo do espírito, verificou-se aquela aproximação de tradição marcial e do budismo zen que, erroneamente, se imagina que sempre foi a regra. Mas só com o fim das lutas que poder e com a relativa “desocupação” da classe militar (Buke) é que começou uma transformação do modo de se entender a prática marcial. Do bujutsu (“habilidade, técnicas marciais”), o cento de interesse se deslocou para o budô, a “via marcial”; as técnicas assumiram um valor menos ligado às suas aplicações práticas e se tornaram mais um meio de elevação espiritual que um instrumento de morte.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Porque fazer Iaido ou Kenjutsu

O Iaido- A espada que acalma

Iai tem como objetivo o autodomínio do praticante e a derrota do adversário sem a necessidade de desembainhar a katana, i.e. a conquista psicológica do adversário sem que haja necessidade do uso da espada.


O Iaido é uma mistura única de ética Confucionista, de métodos introspectivos do Zen budismo e da filosofia Taoista(?), tudo isso temperado pelo rigor do Bushido. O Iai proporciona um estado mental focado e sereno ao praticante, podendo ser entendido como uma disciplina meditativa.


A espada no Iaido é um instrumento espiritual, sem dimensão material. As horas de treinamento dedicadas para que se possa atingir o domínio da técnica são horas em que o praticante entra em contato com seu eu interior (espírito).


A Historia


A tradição e história do Iaido remontam cerca de 500 anos. O Iaido, como é conhecido atualmente, começou, provavelmente, com Iizasa Choisai, o fundador do estilo Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu. Essa escola ou tradição incluía, em seu currículo, a prática com vários tipos de armas. Desde o uso da espada e do bastão (Jo) ao arremesso de facas e ao uso de lanças (Naginatas). Uma parte de seu currículo consistia na técnica de desembainhar rápido e golpear imediatamente com o uso de espadas. Essa técnica era usada para autodefesa ou ataque preventivo. Essa parte do currículo

tinha o nome de Iai Jutsu.

É reputado a Hayashizaki Jinsuke Shigenobu (1542-1621), como em toda Arte Marcial, ter recebido inspiração divina para o desenvolvimento de sua técnica, assim como Iizasa Choisai. Inspiração essa que o levou a desenvolver um conjunto de técnicas que denominou Muso Shinden Jushin Ryu Batto Jutsu. Aqui, a palavra Batto significa simplesmente desembainhar a espada.


O fator comum relevante em ambas às tradições (escolas) ou Ryu, assim como em muitas outras tradições que lidavam com katana, era que suas práticas envolviam somente o uso de katas1, i.e. sempre preconizavam adversários imaginários em seus treinos.


A Essência do Iaido


Como uma arte marcial pode ser efetiva quando é praticada somente com o uso de katas contra oponentes imaginários? Essa questão é mais profunda e difícil de responder do que pode parecer inicialmente. O problema começa na definição de ‘efetiva’ e que efeito se deseja obter. Claro que nos katas não existe oportunidade de comprovação da técnica do praticante em combate, como existe no kendo. O rigor na repetição dos movimentos do kata não deixa também espaço para adaptações em resposta às ações de um adversário real.


1 No Kendo, o aluno aprende a confrontar-se com um oponente real, mas com o uso de uma espada de bambu. No Iaido, o praticante usa uma katana real ou uma imitação (Iaito) e enfrenta um adversário imaginário usando uma série de movimentos predeterminados. Esse tipo de prática é chamada de kata.


Como uma arte marcial contextualizada no mundo atual, é muito fácil enxergar, superficialmente, o Iaido e outras formas de esgrima como extemporâneas, simplesmente por não ser usual nem esperado que alguém saia pelas ruas portando uma espada.


O que deve ser notado no entanto é o que está por baixo dessa observação superficial. O que deve ser observado é o modo como o praticante deve se portar para evitar conflitos. Isso foi explicado milênios atrás por Sun Tsu em sua obra A Arte da Guerra e, posteriormente, por muitos estrategistas. O praticante que treina com dedicação e correção e com a orientação de um Sensei, desenvolve a habilidade de reconhecer situações difíceis e de como evitá-las antes que se tornem problemas de fato. Mesmo

sendo inevitáveis ele aprende a enfrentá-los antes que atinjam grandes proporções. Mesmo algumas sendo inevitáveis, o praticante aprende a manter um estado de espírito e postura corporal e mental, que não oferece, ao adversário, oportunidade de agredi-lo. Essa é a essência do Iaido, do Kendo e de outras Artes Marciais que não se transformaram simplesmente em esportes comerciais.

O Kanji ‘I’ também pode ser lido como ‘itte’ e ‘ai’ como ‘awasu’ na frase 'Tsune ni itte kyu ni awasu' que significa: seja onde e o que estiver fazendo, sempre esteja preparado. Como preparado entende-se não só estar alerta, mas também ter treinado rigorosamente para que, se necessário, uma técnica decisiva possa ser utilizada para terminar um conflito. Golpes com uma katana normalmente são cabais, mas esse não é o ponto. No mundo dos negócios a pessoa deve estar preparada e agir decisivamente quando

necessário. Será que a pessoa está preparada, tem a autoconfiança necessária?

Quando um amigo desaponta uma pessoa, ela consegue lidar bem com esse tipo de situação, entendendo completamente as implicações e as conseqüências de suas ações? Ao cruzar uma rua e um carro aparecer como do nada ou algo cai sob sua cabeça enquanto está caminhando, seu corpo se encontra suficientemente equilibrado e sua mente suficientemente clara para lidar com esse tipo de situação e se colocar em segurança? Todos esses são exemplos práticos da aplicação do Iaido no mundo

moderno.

A prática do Iaido é educativa tanto para jovens estudantes, como para executivos, gerentes e empresários, em resumo para todo aquele que precisa e quer aprimoramento nos principais valores humanos e de cidadania.


A Estrutura do Kata


Cada kata segue a mesma estrutura básica de quatro partes: Nukitsuke (desembainhar e cortar) Kirioroshi (corte principal com o uso das duas mãos) Chiburi (retirada do sangue da lâmina) e Noto (embainhar a espada); existem dentro desse formato variações consideráveis. Dentro das mais comuns encontram-se: golpear para frente com o tsuka (empunhadura da katana) antes de desembainhá-la, puxar a bainha (saya) para trás e golpear imediatamente girando-se para trás, cotar em ângulos diferentes de horizontal e vertical, e.g.: diagonalmente de baixo para cima e de cima para baixo ou pela lateral, entre outros.


O Formato de uma Seção de Treino


Após o aquecimento e alongamento, o treino começa com o rito de etiqueta de abertura, que consiste de kamiza ni rei (curvar-se para o lugar sagrado), sensei ni rei (curvar-se para o instrutor) e o to rei (curvar-se para o katana). Em seguida inicia-se uma seção de suburi (prática dinâmica de cortes) e kihon incluindo Chiburi e Noto. A depender do tamanho e nível da turma, outras técnicas derivadas dos katas são exercitadas antes da prática dos katas propriamente dita ser iniciada. A série de katas, freqüentemente, se inicia com o sensei explicando algum ponto que deve ser especialmente observado pela classe ou por algum subgrupo específico da mesma. A isso se segue a pratica formal, em que todos praticam os katas em conjunto sob o comando do líder do dojo ou um treino livre quando os katas são praticados sem sincronismo e individualmente, cabendo ao instrutor a observação e correção de pontos de cada praticante de forma individual. Ao final da seção, todos fazem a etiqueta de fechamento em conjunto.


O Keiko


Esse termo significa treino ou prática, mas é mais que isso. É o estágio em que os

movimentos são aperfeiçoados por repetição lenta, dividindo-se o kata em suas partes
componentes e pela contextualização da técnica em situações e confronto real. Com o
tempo, o praticante começa a entender os princípios de Metsuke (correto uso dos olhos),
Seme (pressão sobre o adversário) com o objetivo de controlar o adversário. Durante o
keiko também são apreendidos os conceitos de Maai (distância de combate) e Ma
(tempo - timing).

O Currículo


O aluno, após aprender as bases de como segurar a katana e cortar, é introduzido gradualmente aos doze katas padronizados pela All Japan Kendo Federation. Esses katas foram desenvolvidos para servir como um padrão para ensino, graduação e competição de forma. Seus movimentos são derivados das formas das escolas antigas (koryu) mais difundidas e, embora representando um estudo base para preparação da prática de koryu, eles continuam sendo usados mesmo em estágios mais avançados,

como as formas padrão utilizadas pelos sensei para demonstrar princípios básicos da técnica.

Além das formas padronizadas, existem as formas das escolas antigas (koryu). As escolas antigas mais difundidas no Japão são Muso Shinden Ryu e Muso Jikiden Eishin Ryu, ambas são derivadas da tradição Muso Shinden Jushin Ryu Batto Jutsu. Essas escolas têm cinco conjuntos de katas, três praticados como solo (Iaido) e dois praticados a dois (Ken jutsu). À medida que o estudante progride, o alcance da

interpretação dos katas se amplia. Enquanto os estudantes iniciantes têm um conjunto de movimentos rigidamente definidos, os estudantes mais avançados já são capazes de imaginar o Kasso Teki (inimigo imaginário) se movimentando e agindo diferentemente.

Assim, eles adaptam os katas de acordo com a necessidade. De modo similar, nas práticas em duo, o estudante (shidachi) deve aprender a cobrir seus pontos fracos (Suki - aberturas), caso falhe, o professor (uchidachi) deve mostar-lhe onde está fraco, podendo atacá-lo de forma diferente do prescrito originalmente no kata. Isso é o início do aprendizado de como estar sempre preparado para qualquer eventualidade no Iaido. Em nosso Dojo adotatamos o estilo Muso Shinden Ryu


O significado de Muso Shinden Ryu



Os dois primeiros kanji pronunciam-se "musoo" e significam "sonho, visão";

O terceiro kanji, que pode ser pronunciado como "shin" ou "jin", significa "deus, divindade, espírito";
O quarto, pronunciado como "den" ou "ten", significa "transmitido";
O quinto kanji se pronuncia "ryuu".
Assim pode-se traduzir Muso-Shinden como uma escola:
"transmitida em sonho por divindade." ou "inspirada por sonho divino." ou "transmitida por visão divina."

Ela se divide em 3 níveis: Shoden (básico) com 12 formas, Chuden (intermediário) com 10 formas e Okuden (formas profundas), este subdivide-se em: Tate Hiza No Bu com 8 formas, Tachi no Bu com 10 formas e Seiza No Bu 3 formas.


Os Nomes dos Katas do Iaido


SEITEI GATA


1. Ippon-Me - Mae

2. Nihon-Me - Ushiro
3. Sanbon-Me - Uke nagashi
4. Yonhon-Me - Tsuka ate
5. Gohon-Me - Kesa giri
6. Roppon-Me - Morote zuki
7. Nanahon-Me - Sanpo giri
8. Hachihon-Me - Ganmen ate
9. Kyuhon-Me - Soete zuki
10. Juppon-Me - Shiho giri
11. Juichihon-Me - Soh giri
12. Juunihon-Me - Nuki uchi
 
 
Fonte : http://www.aizen.org

domingo, 2 de janeiro de 2011

Aikido - Uma Pequena Visão

Muitas pessoas chegam ao Aikido com uma idéia pré-concebida do que este seja. Normalmente seu único contato com o Budo (Artes marciais de origem japonesa, vinculadas à idéia de auto-aperfeiçoamento), foi através de filmes ou de alguma demonstração que assistiram de Karate ou Judô. Quando estas pessoas visitam um Dojo de Aikido, quase sempre se sentem frustradas com o que vêem, já que não encontram o que esperavam... golpes de alto impacto visual, físico e sonoro! O que acabam na verdade encontrando são movimentos bonitos, circulares e até certo ponto harmoniosos. A primeira impressão destas pessoas já pré-dispostas a qualificar as artes marciais como algo fisicamente bruto, é quase sempre de surpresa e desagrado pois para seus olhos tudo o que vêem é combinado, como se os praticantes estivessem executando algum tipo de ritual ou dança folclórica.
“Isso não funcionaria numa situação real!”... É quase sempre o que pensam e muitas vezes dizem. A prática do Aikido é Budo! Não um simples sistema de defesa pessoal, seus movimentos e formas envolvem tanto o trabalho específico de defesa pessoal, movimentação e posicionamento do corpo, estudo da relação e direcionamento de forças, controle respiratório, emocional... como também trabalhos mais sutis com a consciência do aluno (Na verdade poderíamos dizer que neste aspecto é onde se encontra a pedra fundamental das artes de desenvolvimento interno.). Para as pessoas com um pouco mais de conhecimento sobre o assunto, o Budo é tido como ferramenta para se cultivar as qualidades latentes do ser humano, expandindo seu potencial individual para assim alcançar o benefício de toda a humanidade.
Essas qualidades latentes são tanto internas(ao aluno - “sua consciência”) como externas(situações - ação e reação). Poder-se-ia dizer que a função do Budo é o aprimoramento interno do indivíduo, e que tal aprimoramento começa a partir do cultivo de qualidades que o próprio aluno possui em menor ou maior escala dentro de si mesmo. O Budo utiliza-se de ferramentas para fomentar situações externas e internas durante a prática, onde a ação do aluno torna-se a própria manifestação física de sua consciência(estado mental). Matéria(físico) e consciência(mental) tornam-se movimento, ou seja, ação direcionada que no nosso caso é a manifestação do Aikido. No Ocidente não estamos acostumados a observar a consciência como uma força, já no Budismo(Tibetano) acredita-se na existência de duas forças reais: a matéria e a consciência. É lógico que a consciência depende até certo ponto da matéria, e a alteração ou mutação da matéria depende também da consciência. Através da consciência pode-se alterar a matéria ou corpo físico... no nosso caso isso esta invariavelmente relacionado a forma do Kata(forma técnica).
O Aikido é uma arte marcial onde se utiliza movimentos complexos, sempre mantendo um foco consciente de harmonização e não destruição. Quando observamos um soco ou chute sendo usado como simples veiculo de destruição, prontamente podemos dizer que tais sistemas marciais(escolas) que os utilizam visando apenas tais aspectos destrutivos do uso do corpo, tem por meta principal simplesmente subjugar o oponente. No Aikido não existe tal uso do corpo ou sentimento puramente de agressão gratuita, seus movimentos exigem algo mais no sentido de que o objetivo não é derrubar ou derrotar a situação, mas sim a harmonização das ações e sentimentos... através do estudo dos fundamentos naturais. Esses fundamentos ou leis naturais envolvem todos os diferentes aspectos das interações de forças do universo.
Nas artes marciais em geral existe a necessidade por parte do praticante de aprender a forma ou Kata. Isso é necessário para que ele desenvolva uma percepção de sua própria movimentação forçada(movimentação pré-concebida por seu próprio corpo e intelecto) e mais profundamente a influência de seu estado mental atual com a execução desta movimentação. Essa movimentação forçada pode ser usada com êxito em uma situação extrema(risco de vida) onde seja necessário se defender de um agressor, porém o que deve ficar claro é que a defesa pessoal em si é somente um subproduto, o estudo principal das artes marciais vinculadas ao espírito do Budo é voltado para a conscientização do resultado restrito da defesa-pessoal. O aluno deve tomar consciência através da execução da forma, que a mesma é restrita a uma determinada situação de agressão. Como provavelmente o aluno vai praticar com pessoas de diferentes características tanto físicas como psicológicas, ele acaba por perceber que o Kata não é uma estrutura fixa, mas sim fluida... suscetível a adaptações necessárias à sua execução dependendo das características únicas de cada ação de ataque. Essa liberdade, ou talvez seja melhor nos referirmos a ela como criatividade por parte do aluno durante a execução de um Kata, é considerado um estágio avançado no treinamento. Essa criatividade e adaptabilidade foi basicamente definida pelo próprio fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, como Takemusu Aiki(Um termo freqüentemente utilizado pelo fundador para definir o espírito da verdadeira arte marcial japonesa. Em uma tradução livre seria algo como: O Nascimento de técnicas infinitas enraizadas no fluxo natural da Natureza.)
No início o Kata ou forma é executada de forma rígida(modelo pré-estabelecido), não se dando ao iniciante muita liberdade dentro da forma. Neste primeiro contato do aluno com a forma, o mesmo é obrigado a adaptar-se a ela e não o inverso. Com o avanço da prática o aluno consegue executar a forma de maneira mais natural, adaptando-se não mais tanto a ela mas sim a um período específico da execução da mesma(seqüência específica de movimentos dentro do próprio Kata principal). Sendo assim, o aluno começa a ver que um Kata, exemplo Shomen Uti Dai Iti Kyo Omote, na verdade é formado por vários Katas menores(com funções específicas)... ou seja, seqüências menores de movimentos que somados criam o Kata específico estudado, no caso do nosso exemplo o Dai Iti Kyo. Essa consciência ele já obtêm neste estágio de maneira quase inconsciente, não criando uma nova técnica diferente toda a vez que executa um Kata, mas sim uma nova execução de uma técnica específica(uma aplicação dos princípios inerentes a forma estudada, não necessariamente a construção formal da mesma).
A função do Uke(atacante) dentro do Aikido é bem específica: Empenhar-se em proporcionar um ataque onde seja possível ao Nague(aquele executa) estudar os princípios intrínsecos a uma técnica específica. Portanto, veja bem, é o Uke que oferece a oportunidade de estudá-la. Sem esta compreensão por parte do Uke, o estudo da forma torna-se inviável para o Nague.
O que diferencia o Aikido de outras artes marciais é exatamente esse ponto observado no parágrafo acima, não existe um atacante e um defensor, ou um vencedor e um perdedor. Existe na verdade pessoas ajudando-se mutuamente não através de vitórias ou derrotas, mas através do companheirismo. Muitos professores e esportistas de outras artes marciais, e as vezes até mesmo do próprio Aikido, criticam essa visão fundamentalmente altruísta do Aikido, afirmando ser essa um ilusão... que o mundo em que vivemos hoje é altamente competitivo, e que você deve ser o melhor através da superação de outras pessoas... e que sem a competição externa o aluno torna-se uma ovelha entre lobos, que sem a competição o aluno não se empenharia tanto em aprender.
Para mim essa atitude de tornar-se o melhor pela superação de outras pessoas, ou depender de um estímulo externo deste tipo (competição simplesmente realizada para demonstrar ou reafirmar um sentimento de superioridade perante outro ser vivo), é obter uma confiança equivocada em si mesmo através da posse de um sentimento de superioridade. Acredito que a força de vontade que leva o aluno a buscar subjugar os demais é a vergonha de ser o mais fraco ou o desejo de torna-se o mais forte... Será realmente que o Budo resume-se a isso? Será realmente que estas pessoas estão certas em afirmar que para progredir na vida é necessário possuir este tipo de caráter ou índole? Pelo menos hoje, para mim, acredito que o ser humano possui um potencial muito maior do que simplesmente subjugar os demais... E que o Aikido pode ser uma excepcional ferramenta ou meio para o auto-aperfeiçoamento e não simplesmente mais um método de defesa-pessoal.
Rubens Caruso Júnior Sensei


fonte:   http://www.aikidopesquisa.com.br/artigo_aikido_uma_pequena_visao.htm


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Miyamoto Musashi shinken-shobu

Miyamoto Musashi escreveu 13 pontos sobre como lutar em shinken-shobu, são eles:
  1. Toda técnica deve ser feita com uma combinação.
  2. Os dois pés devem se mover. Isso é natural. Nunca mova um só pé.
  3. Não favoreça só um pé.
  4. Mantenha a flexibilidade. Isso é essencial para você se adaptar à situação.
  5. Programe suas técnicas de acordo com o seu tamanho e conforto.
  6. Não favoreça somente uma técnica.
  7. O momento para atacar é quando o seu oponente pisca, toma ar, fica tenso ou vacila. Esse instante é chamado de suki. Suki é uma parada da mente. É um espaço entre os dois objetos ou momentos de tempo.
  8. Não deve haver nenhuma intenção; deve simplesmente acontecer. Isso é zen.
  9. Mantenha uma mentalização superior. Nunca considere perder. Se assim o fizer, será derrotado certamente.
  10. Em combate, mova-se como você age normalmente na vida cotidiana e vice-versa.
  11. Aja livre de qualquer pensamento ou ação preconcebida. Não deve haver qualquer sinal de esforço.
  12. Quando não há intenção, não há pensamento.
  13. Mantenha seu equilíbrio. Nunca se estenda em uma área grande  demais.

domingo, 28 de novembro de 2010

Atemi



Por: George S. Ledyard.
Tradução feita por Frederico Ventriglia.

Dojo Central- Instituto Takemussu Brazil Aikikai.

George Ledvard é o instrutor líder no Aikido Eastside, em Bellevue, Washington - um dojo que oferece aulas de Aikido tradicional e de táticas defensivas policial.


Alegações conflitantes têm sido feitas a respeito do lugar de atemi (golpe) na prática de Aikido. Alguns insistem que não há nenhum golpe em Aikido, acreditando que a intenção pacificadora da arte é perdida quando o atemi é usado. Porém, segundo Saotome Sensei, 0-Sensei considerava o atemi como o coração da prática de Aikido - e aqueles que trabalharam para preservar a integridade marcial de Aikido sabem por experiência própria que um atacante hábil pode derrotar técnicas de Aikido se não houver o uso de atemi.

Como o atemi pode ser usado nas técnicas de Aikido? Há três modos principais:

(1) Nós podemos usá-los como sendo a própria técnica,

(2) nós podemos usá-los como uma forma de facilitar a realização de outras técnicas, e

(3) nós podemos usá-los apenas como movimentos enérgicos o que eu chamaria de "o não-golpeamento do golpe".

Quando o atemi é usado como uma técnica, a intenção é terminar uma confrontação criando uma lesão física. Golpes que atacam órgãos vitais podem vir a matar; golpes que visam os membros podem impossibilitar o outro atacante de continuar e outros, podem causar um impacto suficiente para deixar atacante adversário inconsciente. O uso isolado do atemi para terminar uma confrontação geralmente não é praticado por Aikidokas dos estilos pós-guerra e, a maioria dos praticantes de Aikido que têm um conhecimento do funcionamento deste tipo de atemi adquiriu isto treinando outras artes. Aikidokas geralmente consideram o uso de golpes o último recurso, devido à ênfase do Aikido no princípio da não-violência; o ideal do Aikido é terminar uma confrontação sem causar dano sério no atacante. Assim, para melhor ou para pior, esta área de estudo não é enfatizada na maioria dos dojos de Aikido.

Os golpes podem ser usados para facilitar técnicas de não-impacto de dois modos diferentes:

Primeiro, podem ser aplicados atemi para causar uma dor intensa e então desviar a energia resistente do atacante. (Estes pode ser aplicado com ou sem dano, dependendo do tipo de golpe e do alvo.) No momento em que o atacante desvia sua atenção - e consequentemente seu ki - para o local da dor, a resistência dele para a técnica principal tende a diminuir drasticamente. A desvantagem deste uso de atemi é que, quando as técnicas são altamente dependentes da dor do atacante, elas são inseguras. Um atacante seriamente determinado pode não notar a dor, e consequentemente pode não haver o desvio de sua atenção. A escolha de mirar o atemi em pontos não-prejudiciais pode aumentar o risco de fracasso em uma situação de defesa pessoal.

Segundo, em lugar de causar lesão ou dor, podem ser usados golpes para mudar o alinhamento físico de um atacante resistente. (Deve-se considerar que uma lesão ou dor poderiam ser conseqüências secundárias.) Freqüentemente, quando um oponente bloqueou uma técnica, um Aikidoka está tão próximo de finalizá-la com sucesso que trocar por uma variação não é necessário. A simples aplicação de um impacto - como um golpe com o joelho na parte de trás da coxa superior quando um atacante resiste a um kokyunage - pode mudar o alinhamento do atacante, fazendo-o liberar a energia usada para bloquear a técnica. Nenhuma dor ou lesão é necessária neste tipo de impacto, desde que o objetivo seja simplesmente alterar a estrutura do atacante.

Outro aspecto do uso de atemi em Aikido cai debaixo do título "não-golpeamento do golpe". Aqui o golpe é usado sem intenção (por parte da pessoa que o executa) de realmente estabelecer contato. Muitos Aikidokas favorecem este "uso enérgico "de atemi, mas alguns não entendem que requer domínio de técnicas de impacto. O atacante realmente tem que acreditar que um golpe potencialmente prejudicial está sendo realizado e tem que sentir a necessidade de pôr sua atenção nele.

Imagine que você está atrás de um vidro transparente e altamente resistente quando alguém lança uma bola de baseball em direção à sua cabeça.

Se o lançamento é forte e com velocidade, induzirá você e abaixar - mesmo você sabendo que o vidro está lá - mas, se o lançamento for suave, você não reagirá a ele.

Por isto, o "não golpeamento" do atemi têm que ter a energia e o potencial de um golpe real para criar o efeito desejado. O atemi fraco simplesmente lançado por muitos Aikidokas simplesmente não terá efeito sobre um atacante bem treinado. O "não-golpeamento do golpe" é usado como distração. Para ser eficaz, o atemi precisa tirar a atenção do atacante - porque eles usam um bloqueio para lidar com o ataque.

Qualquer um que tentou aplicar técnicas de Aikido em oponentes realmente resistentes - como suspeitos sendo presos pela polícia - sabe é duro realizar uma técnica em alguém com a intenção de lhe bater. No dojo, nós treinamos para manter a conexão, mas os atacantes reais tentarão quebrar a conexão no momento em que sentem que coisas não estão indo a seu favor. Para estabelecer e manter a conexão, pode ser necessário um atemi, forçando assim o atacante a bloquear e se defender. Em alguns casos, a técnica de Aikido pode ser aplicada no braço que se defendeu , ao invés do braço (ou perna) que originalmente iniciou o ataque. Enquanto o atemi pode acertar, o que freqüentemente não é necessário, é muito mais fácil de estabelecer conexão com o corpo do atacante quando ele está se defendendo do que quando ele está atacando.







Um aspecto do golpeamento que é freqüentemente mal-interpretado fora de círculos de Aikido é a "projeção sem contato". Freqüentemente a pessoa pode assistir uma aula inteira de Aikido sem ver um golpe evidente. Se forem bem treinados, ambos os praticantes sabem onde os golpes podem estar, mas eles não fazem nada durante a execução das técnicas para fazer com que os golpes escondidos se manifestem. Assim, na maior parte do tempo, na pratica de Aikido , os golpes são implícitos e não explícitos.

Porém, na "projeção sem contato" os golpes se manifestam sob a forma do "não-golpeamento do golpe". Para uma "projeção sem contato" ser eficaz, o golpe precisa ser muito rápido para o atacante evitar ou bloquear, mas lento o bastante para o atacante evitar ser atingido quebrando sua postura levando-o a fazer a queda. Nas "projeção sem contato" os Aikidokas praticam interações marciais convincentes - um estudo enfatizado somente no Aikido.

Um uke treinado em tal estudo será arremessado no momento em que percebe o golpe, dando muitas vezes a quem está olhando, a impressão que ele está se jogando sozinho. Alguns observadores deduzem que o que eles estão vendo é falso sendo que envolve a cooperação dos ukes, enquanto outros com tendências mais místicas - acreditam que eles estão vendo pessoas sendo energicamente lançadas, sem contato físico ou força. (Cada um destes pontos de vista tem um pouco de verdade). Na prática de "projeção sem contato", estamos estudando um tipo de interação que normalmente não existe fora do dojo. Se alguém tentar projetar um parceiro ou oponente destreinado sem o tocar, vai provavelmente acertá-lo o golpe, já que o parceiro destreinado não sabe como evitar o golpe que seria executado uma queda.





Dentre os vários usos de atemi aqui discutidos, muitos praticantes de Aikido parecem se focalizar em apenas um e excluir os outros de seus repertórios de técnicas. Mas, a partir do momento em que o praticante se interessa pela aplicação das técnicas de Aikido fora do ambiente controlado do dojo, é necessário entender todos os aspectos do atemi.

Eu discuti três aspectos principais neste artigo, mas há outros, de formas mais sutis. Por exemplo, um de meus queridos amigos do Aikido deu um grande beijo no rosto do uke antes de lançá-lo com um iriminage. Se a pessoa ampliar a definição de "atemi" incluindo qualquer coisa que o nage faça para tomar a atenção do uke, isto também conta como atemi.

domingo, 21 de novembro de 2010

Fudo-Myo

"Quase a totalidade dos ocidentais desconhecem a figura de Fudo-Myo. Foi o Deus (Sama) protetor dos Guerreiros Ninjas e Samurais do antigo Japão. Estes quando partiam para uma batalha, não temiam a morte porque julgavam estar sob a proteção de Fudo-Myo.

Muitos conhecem Fudo-Myo como o Deus da guerra ou dos guerreiros, e é claro que o nome pode ser mal interpretado. Na verdade Fudo-Myo simboliza o lado guerreiro de cada um.
O fogo que envolve  Fudo-Myo simboliza o interior do ser humano que queima, porém sem ser qualquer sentimento nefasto, representa a pureza do espírito, ou podemos até dizer que é a essência do homem.
No seu rosto e corpo transparecem as emoções negativas, todavia, são para destruir vibrações negativas. Cultuando-o, você estará protegido dos males espirituais, das invejas, dos rancores e de outras energias negativas.
A espada em sua mão direita é a imposição da lei universal e da proteção. A corda na mão esquerda simboliza a liberdade, pois com Fudo-Myo nos libertamos de pensamentos negativos e assim nos tornamos livres.
Para os praticantes de artes marciais, Fudo-Myo é o reflexo de nosso maior oponente, nós mesmos. Para dominar os outros é necessário antes de tudo saber se dominar.
No mundo atual, o ser humano, cada vez mais vai perdendo sua origem e com ela, a dignidade e o respeito. A fé, a crença em um ser supremo está se distanciando cada vez mais. Pobres homens! Se soubessem que tudo neste mundo é transição, que tudo nos é emprestado, o nosso corpo, até a nossa vida!
Tanto o nosso corpo como a nossa mente devem ser tratados como um prédio em construção, onde o pilar mestre é a nossa consciência, apoiados com as vigas do saber e do treinamento.
Assim deve ser interpretado Fudo-Myo."

domingo, 14 de novembro de 2010

Entrevista com Hiroshi Tada

por Stanley Pranin


Aikido Journal #101 (1994)

Traduzido por Christiaan Oyens




Hiroshi Tada, 9º dan




AJ: Sensei, é verdade que o senhor começou a prática do aikido depois de ingressar na universidade de Waseda?


Tada Sensei: Sim, por causa da guerra não foi possível me inscrever no dojo até março de 1950.

Soube que o senhor treinou primeiro karate ao ingressar na universidade e só depois se sentiu atraído pelo aikido…


Na verdade não treinei muito karate, se bem que tenho um grau de dan. A princípio praticava ambas as artes, mas eu comecei a dedicar mais tempo ao aikido e ficou impossível de treinar as duas artes. Não é que eu tenha achado uma arte melhor que a outra, a questão era que admirava tanto Morihei Ueshiba Sensei. Eu o conhecia desde a minha infância.


Em 1942, eu estava em Shinkyo (hoje em dia Chan Chun, Manchuria), mas tinha acabado de perder a apresentação de Ueshiba Sensei na famosa Décima Exibição de Artes Marciais da universidade de Kenkoku. Meu primo, que é um ano mais velho do que eu, me disse que foi uma demonstração fantástica. Aparentemente quase ninguém conseguia receber ukemi de Ueshiba Sensei. Não estavam apenas sendo arremessados, era como se estivessem sendo eletrocutados por uma grande descarga elétrica.


Na quarta edição do Aikido Tankyu [uma publicação do Aikikai Hombu Dojo] o senhor escreveu que se sentia surpreso e impressionado pelos pensamentos inusitados de Ueshiba Sensei.


Eu tinha vinte anos ao ingressar no dojo e Sensei tinha sessenta e sete, uma diferença de uns quarenta e sete anos. Mas ele me arremessava com tanta facilidade, mesmo quando o atacava com toda força, que nesse sentido não se notava qualquer diferença de idade entre nós. Hoje acho isso compreensível, é claro.


De qualquer maneira, ele tinha uma presença singular e era repleto de uma energia incomum. Eu senti que tinha encontrado um verdadeiro especialista nas artes marciais.


O fundador do aikido Morihei Ueshiba arremessando Tada, c. 1958


Ingressou no Tempukai na mesma época que começou o aikido?


Quando ingressei no Hombu Dojo, a maioria dos praticantes eram membros do Tempukai ou do Nishikai. Claro que naquele momento só tinham seis ou sete pessoas no dojo. Entre eles estavam Keizo Yokoyama e seu irmão mais novo, Yusaku, ambos sendo estudantes da universidade de Hitotsubashi. Yusaku passou os últimos dias da guerra na academia naval e entrou na universidade após o termino da guerra. Foi ele que me apresentou ao Tempukai e ao Ichikukai. Depois outra pessoa me ensinou sobre os exercícios de jejum. Estas práticas, associadas aos ensinamentos de Morihei Ueshiba Sensei, formaram a base do meu treinamento.


Fui apresentado ao Tempukai em Junho do mesmo ano que ingressei no Aikikai. Tempu Nakamura Sensei ministrava reuniões de estudo mensais no Templo Gekkoden de Gokokuji. Igual ao Aikikai, o Tempukai pouco fazia para se promover publicamente e as pessoas se ingressavam no Tempukai ao serem apresentadas por outros membros. Eu conheci Tempu Sensei e depois de ouvir o que ele tinha a dizer, aderi imediatamente.


Tempu Nakamura (1876-1968)


Ueshiba Sensei e Tempu Sensei se conheciam pessoalmente?


Sim. Foi antes de eu ter entrado no dojo, mas parece que tinham sido apresentados já há algum tempo pelo pai de Tadashi Abe, que era tanto um membro do Tempukai como aluno de Ueshiba Sensei. Inicialmente, o Tempukai era conhecido como Toitsu Tetsuigakkai (Sociedade Para o Estudo da União entre Medicina e Filosofia), e seu foco era a união entre mente e corpo. Eu participei de várias experiências do Tempu Sensei, então tive muito contato com ele.


Por quanto tempo foi membro ativo do Tempukai?


Até a minha ida para a Europa em outubro de 1964. Tempu Sensei faleceu em dezembro de 1968. Durante os meus seis anos na Europa, Morihei Ueshiba Sensei e Tempu Sensei, como o meu avô também, todos faleceram.


Ouvi falar que Tempu Sensei era um especialista com a espada.


Sim, ele era um expert em Zuihen-ryu battojutsu. Ele criou seu nome, Tempu, dos caracteres chineses “ten” e “pu” usados para escreverem a forma de Zuihen-ryu’s amatsukaze, algo em que ele era extremamente versado. Tempu Sensei era descendente do lorde Tachibana, o daimyo em Yanagawa. As artes marciais eram tão populares em Yanagawa quanto para o clã Saga de Kyushu, cuja reputação foi aclamada no livro intitulado: Hagakure [um texto clássico sobre o bushido, ditado por Tsunetomo Yamamoto em 1716]. O conteúdo singular das palestras de Tempu Sensei se dava pelo fato de ele falar mais de suas próprias experiências do que valorizar qualquer processo intelectual. Ueshiba Sensei agia da mesma forma. Idéias geradas no plano intelectual não têm o mesmo poder para atrair as pessoas.


Fale-nos, por favor, sobre o Ichikukai?


Um senhor chamado Tetsuju Ogura, era um dos últimos uchideshi de Tesshu Yamaoka. Durante o período Taisho, alunos e seguidores de Ogura junto com membros do clube de barcos de corrida da Universidade Imperial de Tókio (hoje Universidade de Tókio) criaram uma sociedade que praticava o misogi (ascetismo, rituais de purificação). Foi sob a direção de Masatetsu Inoue. No começo, o Ichikukai se congregava no dia 19 de cada mês, em comemoração à morte de Tesshu Yamaoka, falecido 19 de Julho, por isso o nome Ichikukai [ichiku em Japones significa “1 e 9,” i.e., 19].


Quando ingressei as reuniões aconteciam num dojo da era Taisho em Nogata-machi, Nakano. De quinta-feira a domingo nos sentávamos em seiza durante umas dez horas por dia, entoando uma passagem de um norito (prece Shinto), nos entregando completamente a esta tarefa. Era algo semelhante a recitar um mantra. Depois de passar por esta iniciação você se tornava um membro, aí podia freqüentar os encontros que ocorriam uma vez por mês, aos domingos. Ali eles faziam um exercício cântico chamado ichiman-barai, que consistia em tocar um sino de mão dez mil vezes. O som do sino não fica claro e pronunciado até o movimento da mão se tornar automático. Nas minhas aulas de aikido muitos dos meus alunos avançados fazem essa pratica.


O senhor treinou com o ken ou jo?


Houve um período em que O-Sensei ficava furioso com os alunos no dojo que tentavam treinar como o ken ou jo, e ele os proibia de usarem esta pratica. Porém, mais tarde ele começou a ensinar essas técnicas. Na minha infância eu tinha praticado arco e flecha japonesa que era tradição na minha família. Também pratiquei kendo no colégio. Isto foi durante a guerra, então não era uma disciplina esportiva. Depois quando comecei a treinar aikido eu praticava balançando o ken contra uma arvore perto da minha casa.


Treinamento individual é importante não importa a arte que você pratique. Você deve criar seu próprio programa de treinamento, começando por corrida. Aos vinte anos, e aos trinta também, eu me levantava todas as manhãs às 5:30 e corria uns quinze quilômetros. Após a corrida eu ia para casa e treinava golpeando com um bokken (espada de madeira) um monte de galhos amarrados. Naqueles tempos as casas em Jiyugaoka eram bem mais afastadas, então eu podia fazer barulho à vontade. Treinava usando a forma Jigen-ryu que tinha aprendido com O-Sensei em Iwama. Dizem que antigamente os guerreiros de Satsuma [em Kyushu] golpeavam trouxas de galhos dez mil vezes todos os dias, mas eu só conseguia umas quinhentas vezes, na melhor das hipóteses. No início, minhas mãos ficavam dormentes, mas depois de um tempo eu conseguia golpear uma arvore grande sem problemas. Fiz com que os meus alunos nas universidades de Waseda e Gakushuin treinassem desta forma. Acho este treino, um dos melhores para o aikido.


É claro que não é bom usar força física excessiva. Apenas segure o bokken, ou até um pedaço de pau feito de madeira verde suavemente e aperte com o dedo mindinho e o quarto dedo na hora do impacto. Será desenvolvida naturalmente a velocidade e a habilidade de apertar os dedos fechados corretamente. Este tipo de prática suave é importante, porque se você pratica usando força o tempo todo, você poderá acabar arremessando e aplicando as técnicas nas articulações com demasiada força, e isto pode ser perigoso.


Em Lido, Venezia, Itália, 1968


É lamentável que o espaço limitado nos nossos dojos modernos não permita mais este tipo de treinamento. Eu gostaria de aos poucos reorganizar as coisas a fim de tornar estes treinos mais accessíveis.


O que acabo de descrever é uma forma básica de praticar golpes, mas o trabalho dos pés, o movimento das mãos e o desenvolvimento de ki através de kokyuho são os elementos importantes do treinamento individual.


O senhor estudou Morihei Sensei e planejou seu método de treinamento baseado no que observou?


Sim. É muito importante observar o treinamento pessoal de seu professor nos mínimos detalhes e aprende-lo bem; caso contrário, você poderá tirar conclusões erradas e precipitadas e acabar perdendo seu tempo com treinos equivocados e sem sentido. De qualquer forma, você precisa revisar o que o seu professor lhe ensinou e criar algo que dê continuidade a estes ensinamentos, aí você deve praticar isto de novo e de novo até conseguir fazê-lo. Assim você criará seu próprio método de treinamento.


Eu acho que se você deseja se tornar um especialista no que faz – seja isto um tipo de arte marcial, esporte, algum tipo de arte ou o que for – você deve treinar pelo menos duas mil horas por ano quando você estiver com entre os vinte e quarenta anos. Isto significa cinco ou seis horas por dia. Depende de cada pessoa, mas a maioria do tempo será investida em treinamento individual. Depois de treinar só, você pode ir para o dojo para confirmar, experimentar e trabalhar tudo o que você adquiriu.


Usar uma arvore como seu parceiro num treino de aikido é uma excelente maneira de treinar com vigor porque você pode golpear com muito mais força do que se o seu parceiro fosse um ser humano. Não é apropriado treinar com força excessiva quando seu parceiro é uma pessoa, você deve usar esse tempo para desenvolver linhas corretas, limpas e afiadas.

O Ueshiba Sensei chegou a falar com o senhor sobre Daito-ryu ou Onisaburo Degushi?


Ueshiba Sensei falava sempre com muito respeito sobre seus professores, incluindo Takeda Sensei e o reverendo Onisaburo Degushi. O que me lembro claramente sobre seus discursos a respeito do Daito-ryu, é que ele o considerava um excelente método de treinamento. Após seus treinos, O-Sensei retornava com freqüência para o dojo e conversava sobre diversos assuntos.


Soube que Ueshiba Sensei falava sobre religião, especificamente sobre a religião Omoto…


Sim, e às vezes eu entendia perfeitamente o que ele estava dizendo, enquanto outras vezes me deixava completamente confuso. Mas ele também nos disse, “Isto é apenas a minha maneira de falar, eu quero que cada um de vocês interprete o que digo da sua própria maneira, explorem isto profundamente e transmitam isto em palavras apropriadas para os novos tempos”.


O aikido é mais proveitoso para a humanidade do que se possa crer, mesmo sob a ótica de alguém como eu que se especializa em aikido. Em 1952, após a minha formatura da universidade, todos os meus amigos ficaram surpresos com a minha decisão de me especializar em aikido, provavelmente porque foi tão perto do fim da guerra. Mas para mim, o aikido de Ueshiba Sensei abrange toda a essência da cultura japonesa e eu enxergava nesta arte algo que poderia ser muito importante para o Japão no futuro.


Na verdade, o aikido parece ter se estabelecido com mais solidez na Europa do no que no Japão. De qualquer maneira, para começar algo do zero, dentro de um novo contexto cultural, o treinamento de aikido se torna impossível sem uma clara compreensão do que seja o aikido e quais sejam suas metas de treinamento. Sem estes requisitos, seria como pular num trem sem saber sua direção ou destino. Em outras palavras, é importante traçar uma direção clara para os treinos de aikido desde o inicio. Quanto a decidir sobre métodos de treinamento, seria impraticável pedir a pessoas que querem treinar duas a três vezes por semana que treinem da mesma forma que as pessoas que querem treinar várias horas por dia. Parece-me adequado que cada um treine dentro do contexto de seu dia a dia. Porém, aqueles que desejam se tornar especialistas ou que querem explorar o aikido profundamente, precisam traçar um plano de onde estão indo e como irão fazer para chegar lá.


No All Japan Demonstration


Não posso dizer o que é certo ou errado sobre métodos de treinamento. A maioria dos artistas marciais não está numa posição de ficar criticando as técnicas dos outros, pois em muitos casos, uma pessoa que aparenta ser fraca pode acabar demonstrando uma força extraordinária.


Poderia nos contar sobre sua organização na Itália?


O nome official do Itália Aikikai é L’Associazione di Cultura Tradizionale Giapponese (Associação de Cultura Tradicional Japonesa), e é reconhecida como uma organização oficial pelo Ministério da Cultura Italiano. Como o nome sugere, o aikido é praticado ali como uma forma de cultura tradicional. É evidente que o que eles fazem ali é diferente de qualquer prática esportiva. Acho que seria difícil para um japonês morando no Japão entender esta situação. Ou seja, eles praticam o aikido como uma forma de “meditação em movimento”. Em paises como Itália, Suíça e Alemanha, a frase “ki no renma” (cultivação do ki) está sendo usada no seu sentido original, em japonês.




fonte: http://www.aikidojournal.com/article?articleID=88&lang=br