terça-feira, 6 de outubro de 2009

Masamune e Murasame

A espada é a alma do samurai" diz as regras do Bushido. Símbolo da coragem e lealdade, é a arma favorita do samurai. Os antigos japoneses diziam,segundo a religião Shinto, que a espada seguia as "vibrações" de quem as fabricava. Masamune e Murasame eram dois ferreiros que viveram no século XIV. Eles fabricavam espadas. Murasame tinha um caráter violento e era inquieto. Tinha uma reputação péssima por fabricar "espadas terríveis" que faziam seus manipuladores travarem
combates sangrentos em que, as vezes, faziam com que os mesmos morressem. Suas armas sedentas por sangue rapidamente ganharam fama de serem maléficas.Ao contrário dele, Masamune era um forjador sério de grande serenidade e praticava um ritual de purificação para forjar suas espadas. Elas eram consideradas as melhores do país.
Um homem queria averiguar as diferenças entre as espadas e introduziu numa corrente
de água uma espada de Murasame. Cada folha que passava pela espada era cortada em
dois.Em seguida introduziu uma espada de Masamune. As folhas "evitavam" a espada.
Nenhuma delas foi cortada e deslizavam pelo fio da lamina sem nenhum dano.

O homem então deu o veredito: "A Murasame é terrivel, a Masamune é humana."

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Guerras Civis no Japão

As guerras civis japonesas, deixaram o Japão em constantes batalhas num momento conturbado de sua história. Os senhores feudais lutavam pelo poder, por novas conquistas, por terras e para manter sua soberania em seus territórios. Veja aqui algumas delas.

 Okehazama
 Mikatagahara
 Sekigahara
 Guerra Genpei

A Batalha de Okehazama

Em 1560, Imagawa Yoshimoto resolver ir para o oeste. Num movimento audacioso, queria conquistar tudo, o clã Oda e chegar até Kyoto, seu objetivo final. Juntou um exercito de 25 mil homens de Suruga, Totomi e Mikawa e partiu em junho, deixando seu filho Ujizane controlando suas possessões.
         Matsudaira Motoyasu partiu com ele. As tropas de Imagawa foram para vários fronts atacar três castelos. Os líderes dos lugares sob ataque conseguiram avisar Nobunaga, que, em vez de adotar uma postura defensiva – devido ao grande número de inimigos -, partiu para o combate final e inevitável.
         Numa manhã cinzenta, Nobunaga conduziu alguns homens em direção ao exercito de Imagawa. Conseguiu também um número de samurais ashigarus suficientes para dar credibilidade ao seu ataque, mesmo estando em desvantagem de dez para um. Imagawa comemorava o sucesso de sua campanha. Enquanto o seu exercito descansava, Nobunaga se aproximava e montava um estratagema. Colocou suas bandeiras em uma colina e desceu para atacar. Por sorte, uma tempestade desabou. Os homens de Imagawa saíram para atacar onde supunham que Nobunaga estava. Após a saída de um grande número, Oda invadiu. O tumulto e a ferocidade do ataque foram tão grandes que Imagawa imaginou que uma briga havia explodido entre seus homens. Ele só entendeu o que havia acontecido, quando um soldado de Nobunaga, o atacou, arrancando sua cabeça. O exercito de Imagawa estava derrotado.
         Contudo, Matsudaira Motoyasu, que estava num cerco de castelo, ainda estava vivo e soube da morte de Imagawa. Essa vitória em Okehazama mudou a história do Japão. Oda Nobunaga ganhou fama e respeito. Matsudaira Motoyasu assumiu o controle das forças de Imagawa e estabeleceu Mikawa como uma província independente. O resultado disso tudo se daria na batalha de Anegawa.

A Batalha de Mikatagahara

Entre as 16 e 17 horas do dia 4 de fevereiro de 1572, iniciou-se uma batalha violenta no planalto de Mikagatahara, entre o exército de 25.000 soldados de Takeda Shingen  que seguia para Kyôto, e o exército de 11.000 de Tokugawa Ieyasu , que incluía 3.000 soldados de reforço enviados por Oda Nobunaga .
De acordo com o Conto de Mikawa, de Okubo Hikozaemon , Shingen iniciou a batalha mandando um dos soldados da linha de frente jogar pedras nos oponentes.
Embora o exército de Tokugawa estivesse em desvantagem devido ao menor número de soldados, a luta perdurou por vários dias devido ao árduo esforço do comandante Ishii Kazumasa . No entanto, quando as tropas lideradas por Takeda Katsuyori  finalmente quebraram as defesas do exército de Tokugawa, este rapidamente se desequilibrou. De acordo com as descrições do Conto de Mikawa, o exército de Tokugawa, protegendo Ieyasu, começou a fugir em massa para o Castelo de Hamamatsu.
Como a perseguição pelos soldados de Takeda parecia nunca perder o ímpeto, Natsume Yoshinobu  e vários outros bravos samurais fizerem-se passar por Ieyasu e foram mortos.
Ieyasu tinha, então, apenas 31 anos. Tendo como adversário o veterano de guerras Shingen Takeda, foi uma batalha na qual esgotou todos os recursos. Esta foi uma das raras derrotas que Ieyasu teve em toda sua vida.

A Batalha de Sekigahara

A Batalha de Sekigahara foi, provavelmente a maior batalha de todas. Em seis horas de confronto, morreram 35 000 homens só do lado derrotado. Pode  não parecer um grande número para quem vive em uma era como a nossa, em que o assassinato em massa é um recurso cada vez mais acessível a qualquer imbecil. Mas é uma formidável carnificina para  um tempo em que as lutas aconteciam homem a homem, olho no olho, lâmina contra lâmina. O massacre durou 3 dias e deu a Tokugawa Ieasu o título de xogun no período Edo em 1600 derrotando Hideyori e alguns rivais. assim Tokugawa é nomeado pelo imperador o novo Shogun. Abaixo o relato do confronto:
        Depois de uma campanha de guerrilhas e escaramuças, fixou-se o combate decisivo para o dia 1o de outubro de 1600. As duas legiões tinham de encontrar-se no extenso planalto de Sekigahara, na província de Mino. Avistam-se ao raiar daquele dia e avançam de longe uma contra .'. outra com igual denodo. Os Príncipes de Satzuma comandam a direita dos Coligados, Konichi o centro, e Tchidá, um cristão, dirige a esquerda, levando no loudel uma cruz vermelha sobre o peito; Ieiás faz o comando em chefe das suas forças e não tem consigo outro general.
        Disparam-se os primeiros tiros de bombarda; começa a fuzilaria de arcabuzes; mas nesse instante cai dos céus um terrível nevoeiro, e estende-se como lúgubre mortalha sobre o campo da peleja, cegando todos os combatentes. Os Coligados param, perturbam-se; Ieiás porém avança firme por entre a espessa bruma, recomendando aos seus de não fazerem alarme, e rojando-se que nem o tigre quando fareja a presa descuidosa.
        Rasga-se num relance o nevoeiro de alto a baixo, o sol de novo inunda os arraiais, atroa os ares o alarido bélico, e os Coligados estremunham, dando de surpresa pela frente com o inimigo, que feroz se atira sobre eles. Começa logo então, desordenadamente, a luta corpo a corpo, numa confusão estrepitosa de homens, armaduras, cavalos e carretas, que se arrastam de roldão com um só impulso. Ninguém mais se entende; cruzam-se os ferros, partem-se azagaias, arrancam-se punhais; é cara a cara, e a pulso a pulso que a luta se incendeia.
        Meio dia. O sol a pino e a vitória indecisa. Um momento mais de resistência dos Coligados e os Tokugawas terão de ceder à desproporção do número. Ieiás pressente a derrota; voa num galope à retaguarda, toma a frente das forças de reserva e avança com elas, empunhando o seu branco pendão de rosas malvas. Ruflam metálicos tambores à vista dos brasões do Chefe; tam-tans retinem; os búzios ressoam à laia de trombetas; maior levanta-se o clamor das hostes, e, de um arranco, Ieiás rompe as fileiras dos daimyos assombrados. Quem pode resistir a um tal arranco? "Decepar! Decepar!" grita ele aos seus guerreiros, dardejando a alabarda fumegante de sangue. E os fracos fogem; e os fortes apunhalam-se, para não deixar essa honra aos inimigos.
        Ao declinar do sol, Ieiás era senhor do campo, distribuía postos militares e, pela primeira vez no Japão, armava, sob a sua espada, cavaleiros, os samurai que se haviam distinguido na batalha. Para essa nova formalidade, semente de uma nobreza submissa com que ele havia de engrandecer-se na paz, pede o seu capacete emplumado, aparelha-o na cabeça e diz, ao abrochar-lhes os loros de seda escarlate:
— É só depois da vitória que um General deve ornar-se com este festivo toucado de gala!
        Na manhã seguinte fez a sua entrada triunfal em Hikone e depois em Osaka, no meio da aclamação unânime de vencedores e vencidos. Os príncipes do Sul e do Oeste, de cabeça baixa, humilhados, franquearam-lhe os seus domínios em troca do indulto, que ele, contra a norma até aí estabelecida, cedeu com uma demência já de perfeito soberano em que pese a desgraça dos seus súditos.
        E a partir desse momento, o herói de Sekigahara ficou sendo, se não logo de direito, mas incontestavelmente de fato, dono e senhor absoluto do Japão. Em 1603 restabelece o Shogunato, cujo posto assume, convertendo-o agora em poder hereditário, e criando assim, ao lado da velha dinastia dos Micados a nova dinastia dos Tokugawa. A Suserania Shogunal deixa de ser desde então revogável pela Coroa e dependente da vontade dos daimyos, para se arrogar foros de pura autocracia aristocrática, perdendo de todo o primitivo caráter subalterno de intermediário entre a Nobreza militar e o Trono místico. Não podendo Ieiás tomar do Micado também o título para si, inventa o de Tai-Kum (Grande, Primeiro ou Maior Senhor), o qual, em boa lógica, não passa de um sinônimo do outro. E assim se consumou essa estranha duarquia que, duzentos e cinqüenta anos depois, tanto enleio e perplexidade veio a produzir nas relações internacionais do Japão. O Império, sem deixar de ser império, passou a ter duas autoridades paralelamente heráldicas e majestáticas, igualmente supremas e respeitável — o Micado, a quem a nação inteira venerava como um Deus e o Shogun, a quem ela temia como um Rei absoluto; as grossas rendas do Estado logo se derivaram para as mãos deste, não indo para as do outro mais que as sobras, porque ao primeiro cabia, com os seus punhos fortes; prover todas as ineludíveis e ásperas coisas cá da terra, ao passo que o segundo, de palmas finas e defumadas, tinha de haver-se apenas com as boas e complacentes coisas do céu.

A guerra de Genpei, o fim de uma era

Durante o período Heian, o Japão passava por uma grande instabilidade política. As batalhas pelo poder eram constantes. Nesta época, 2 poderosos clãs de samurais disputavam o controle do país: os Minamoto (Genji) e os Taira (Heike). E entre os muitos conflitos envolvendo os dois clãs, destaca-se a Guerra de Genpei, o qual marcou o fim de um período e o estabelecimento do xogun, que significa generalíssimo, supremo mandatário militar, agora como administrador do país.
A guerra tivera início em 1180 quando Minamoto Yorimasa indicou um candidato a imperador diferente dos Taira. No mesmo ano, ocorreu em Kyoto, a primeira batalha de Uji. Os Taira perseguiram o príncipe Mochihito, candidato ao trono imperial do clã rival, até um templo na periferia de Kyoto, chamado Mii-dera. Nesta batalha, ao tentar ajudar o príncipe, Yorimasa foi atingido por uma flecha e para não se render aos inimigos, praticou o seppuku, suicídio pelo desventramento. O príncipe foi assassinado logo depois.
Com a morte de Yorimasa, seu sucessor Yoritomo, assume o controle do clã e enfrenta os inimigos em várias batalhas: Ishibashiyama em 1180, Fujigawa também em 1180, Sunomata em 1181 e Yahagigawa. Após tantas batalhas, o desgaste é inevitável e parte de ambos os clãs recuaram para cidades mais distantes. Yoritomo deixou seu primo Yoshinaka no comando das batalhas de Hiuchiyama e Kurikara/Tonamiyama. Na mesma época, Kiyomori, comandante dos Taira faleceu. E meses após a última batalha, Taira Munemori levou o seu clã para Shikoku com o imperador Antoku.
Yoshinaka, no comando de um exército desorganizado, atacou o palácio Hojujidono. Incendiou o local, matou todos os guardas e contra vários membros da corte, colocou o imperador Go-Toba no poder. Yoshinaka ainda comandou a segunda batalha de Uji e morreu em 1184 na batalha de Awazu.
Minamoto Yoshitsune, irmão mais novo de Yoritomo, se tornou o novo general do clã de Yoritomo. Uma de suas mais importantes vitórias foi na famosa batalha de Ichi-no-Tani, um acampamento dos Taira na região oeste da atual Kobe. O local era protegido ao norte por um penhasco, ao sul por uma baía, onde estavam atracados os navios dos Taira e a leste e oeste, guardas garantiam a segurança dos companheiros. Mas nada disso foi o suficiente para Yoshitsune. Ele separou um grupo com aproximadamente 100 guerreiros e desceu as montanhas a cavalo, surpreendendo aqueles em vigília. Outros dois grupos atacaram o lado leste e oeste forçando o recuo dos Taira aos navios. Antes da última batalha da guerra, Yoshitsune ainda venceu a batalha de Yashima em 1185.
Em 24 de abril do mesmo ano, ao norte de Kyushu, os dois clãs inimigos travaram a batalha de Dan-no-Ura, a qual encerra a guerra. Estima-se que os Minamoto contavam com uma frota de 850 navios contra 500 dos Taira. Mesmo com um número inferior os Taira conseguiram conter o ataque inimigo graças às manobras dos navios e seus hábeis arqueiros. Mas a maré mudou e no combate corpo a corpo o exército de Yoshitsune era impecável. Diante da inevitável derrota, iniciou-se o processo de suicídio em massa. Samurais, membros da família Taira e o imperador Antoku lançaram-se ao mar. Taira Munemori não se suicidou e foi executado como um covarde.

Fontes:
http://www.chinahistoryforum.com/lofiversion/index.php/t12376.html
http://www.city.takamatsu.kagawa.jp/ENGLISH/rekisi/genpei/genpei.html
http://everything2.com/title/Gempei%2520War
Revista Grandes Guerras, abril 2008
Publicado por Bruno Kaneoya no site NipoCultura

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Continuação Katana



ESPADA JAPONESA - NIHONTÕ
Símbolo de força, de uma cultura e de um país, a espada curva japonesa é um ícone universal. Feita artesanalmente com uma técnica desenvolvida ao longo de mil e quinhentos anos, ela é internacionalmente reconhecida como a espada de mais alta qualidade já produzida pelo engenho humano, extremamente valorizada e cobiçada por colecionadores no mundo inteiro. Entre fatos e lendas a respeito deste venerado objeto, Cristiane A. Sato, colaboradora do CULTURA JAPONESA, apresenta a seguir uma introdução ao fascinante mundo da nihontõ, a espada japonesa.
ORIGENS DA ESPADA JAPONESA
Benedicto Ferri de Barros, apaixonado pesquisador da nihontõ, escreveu uma vez que "de todos os artefatos produzidos pelo homem, nenhum supera a espada japonesa em perfeição artesanal, em riqueza artística, em amplitude de significado cultural, em duração histórica, em conteúdo espiritual. Sob um ou outro desses aspectos ela poderá ser sobrepujada por uma ou outra classe de objetos; nenhuma a ultrapassa no conjunto dessas características". E ele não estava exagerando. Tão diversificado em especificidades é o assunto, que é um desafio explicar numa forma resumida algo tão complexo.
Espadas são das mais antigas armas fabricadas pela humanidade, daí que no mundo inteiro e de acordo com culturas locais a espada é um objeto ao qual se deu diferentes simbologias e significados. Via de regra, a espada representa força e poder, dado sua finalidade primeira de ser uma arma. De tal modo uma espada inspirava poder, que a humanidade passou a imputar ao objeto características similares a uma pessoa, tanto que lhe eram nomes individualizantes. No ocidente são famosas as lendas do Rei Arthur e de sua espada, Excalibur. Siegfried, lendário herói germânico, tinha a espada Balmung.
Na literatura, as espadas japonesas mais antigas de que se tem notícia são as relatadas no Kojiki, coletânea de fatos, mitos e lendas da Antigüidade japonesa, considerado o primeiro livro oficial de história do Japão, escrito em 712 d.C. Lendas xintoístas no Kojiki relatam que Amaterasu, a deusa do sol, entregou três objetos a seu neto Ninigi no Mikoto, quando o incumbiu da missão de governar o Japão. Um desses objetos foi uma espada, batizada de Kusanagi no Tsurugi. Esses três objetos - um espelho, um colar e a espada - são chamados de "Tríade Divina", ou "Os Três Tesouros Sagrados". A Kusanagi no Tsurugi é curta, com cabo e lâmina forjados numa só peça parecendo um gládio romano, e encontra-se guardada no templo de Atsuta, em Nagoya. Jimmu Tennõ, filho de Ninigi no Mikoto e historicamente considerado o primeiro imperador do Japão, herdou "Os Três Tesouros Sagrados", que desde então tornaram-se símbolos do poder imperial.
Há atualmente a idéia pré-concebida de que "espada japonesa" seja a kataná, a espada curva com corte apenas de um lado usada pelos samurais. Poucos sabem, entretanto, que na origem os japoneses usavam e fabricavam espadas bem diferentes da kataná. Aliás, existem vários tipos de espadas japonesas, além da kataná. Nos séculos VII e VI a.C., épocas em que se acredita que tenha vivido o lendário Jimmu Tennõ, os japoneses aprenderam a arte da manufatura de espadas de artesãos chineses. Assim, as espadas na Antigüidade japonesa eram feitas no estilo das espadas chinesas: longas ou curtas, mas retas e com ponta dupla (forma de flecha). Este tipo de espadas são chamadas de tsurugi. Muitas dessas espadas foram encontradas em escavações arqueológicas de túmulos do período Kofun (300 d.C. a 710 d.C.).
No século VII d.C., viveu o primeiro dos grandes mestres artesãos de espadas japonesas: Amakuni. Ferreiro do imperador Mommu Tennõ, Amakuni criou durante sua carreira uma nova forma de espadas, pronunciadamente encurvada e de ponta dupla, com corte de um só lado da lâmina virado para cima. Longa (75cm em média), usada pendurada por correntes com uma cinta, esse tipo de espada foi chamada de tachi. Adotada pela alta aristocracia, as tachi foram as precurssoras das katanás dos samurais. Refinadas e decoradas, as tachi tinham mais função cerimonial do que uso em batalha.
A NECESSIDADE FEZ A ESPADA
Embora espadas tenham existido desde a Antigüidade no Japão, nem sempre elas foram símbolo de uma classe guerreira e nem eram exatamente populares. Antes de se tornarem a classe governante no Japão, os samurais eram acima de tudo exímios cavaleiros e habilidosos arqueiros. Tão marcante era tal habilidade dos samurais, que o código de conduta deles era chamado de Kyûba no Michi (O Caminho do Arco e do Cavalo).
Surgido no século X, o Kyûba no Michi era um conjunto de ensinamentos que procurava impor regras de conduta moral e de etiqueta na guerra, em tempos nos quais não haviam leis ou normas escritas para tanto. Além de preconizar treinamento físico, defendia ideais de coragem, de destemor à morte, de impassividade e de cavalheirismo, sendo um dos deveres do samurai proteger as mulheres. De influência xintoísta, o Kyûba no Michi transmitia valores de ética e comportamento usando figuras de linguagem com as armas e objetos usados pelos samurais.
No raciocínio do Kyûba no Michi, a espada representa o homem, e a bainha a mulher. Além do sentido fálico, há a conotação de que a espada representa características consideradas "masculinas", como poder, força e agressividade. Por isso, o complemento ideal da espada é a saya (bainha), que representa características "femininas", como beleza e passividade. "Uma bainha sem espada é um ornamento oco; uma espada sem bainha é usada em demasia", diz um dos antigos provérbios que sobreviveu até nossos dias. Tais ideais práticos foram posteriormente alterados e substituídos na Era Edo (1603-1867), com o advento do Bushido (O Caminho do Guerreiro). Até meados do século XV, a arma mais popular era a yari (espada curta, reta ou curva, montada num cabo longo como uma lança), típica dos ashigaru (guerreiro à pé, de camada inferior).
Um confronto histórico marcou o desenvolvimento da espada que se tornaria sinônimo de espada japonesa: a kataná. Em 1274, o imperador mongol da China, Kublai Khan, neto do conquistador Genghis Khan, enviou tropas por mar para invadir o Japão. Embora os japoneses tenham conseguido rechaçar a invasão, perceberam que os mongóis possuiam armaduras mais resistentes e que precisavam de espadas mais eficientes. Certos de que os mongóis fariam uma outra tentativa de invasão, os japoneses desenvolveram a kataná, espada levemente encurvada com ponta em forma de cunha, empunhadura longa para duas mãos e lâmina comprida com corte unilateral, medidindo em média de 60 a 70 cm.
Podendo ser segurada com as duas mãos, um golpe com a kataná aproveita toda a força de uma pessoa de modo mais eficaz. Sua forma é ideal para rápidos golpes de corte. Sua lâmina larga e resistente é praticamente inquebrável, e a ponta em forma de cunha permitia atravessar a armadura mongol. Quando os mongóis voltaram a atacar, em 1281, a kataná foi posta à prova. Encontrando os japoneses melhor preparados, os mongóis não conseguiram conquistar territórios ao desembarcar, e tiveram que voltar aos seus navios. Um tufão varreu a frota mongol, afundando-a de vez. A este evento natural os japoneses deram o nome de kamikaze (vento divino), acreditando que os deuses haviam enviado o tufão para proteger o Japão.
Em tempos de paz, mestres alfagemes tinham tempo e inclinação para fazer espadas refinadas e artísticas, mas em tempos de guerra a demanda é por quantidade, e a qualidade é colocada em plano secundário. Na Era Kamakura (1192-1333) foram criadas técnicas altamente artísticas, a ponto deste período também ser conhecido como a "era dourada" da manufatura de espadas. Foi nesse período que viveu Gorõ Nyûdõ Masamune, conhecido como "Masamune", considerado o maior mestre artesão de espadas de todos os tempos, e muitos de seus famosos e renomados discípulos, como Kunitsugu Rai, Sadamune Soshu e Yoshihiro Go. Entretanto, na Era Muromachi (1333-1573), sangrentas e contínuas guerras internas no Japão tornaram-se norma. O enfraquecimento do poder imperial deu lugar a disputas entre daimyõs (líderes feudais), uns contra os outros na disputa pelo poder sobre o país, e permitiu a ascenção dos samurais à classe dominante. Muitas espadas de boa qualidade encomendadas pelos emergentes daimyõs foram feitas nesse período, mas a necessidade de armar crescentes tropas particulares de samurais fez com que as altamente artísticas técnicas da Era Kamakura fossem abandonadas em favor de espadas utilitárias.
UM NOVO PAPEL PARA A ESPADA
Basicamente armados com espadas, lanças e arcos-e-flechas, os exércitos particulares dos daimyõs tinham forças equilibradas, e esse período de guerras intermináveis arrastou-se por séculos. Em 1543 um fato novo mudou tal situação: navegantes portugueses - os primeiros ocidentais a chegar ao Japão - introduziram armas de fogo no país: os arcabuzes, chamados de teppõ pelos japoneses. As armas de fogo foram rapidamente assimiladas pelos daimyõs, que as entregaram as suas fileiras de ashigarus. Foi com o uso criterioso de arcabuzes que Nobunaga Oda, filho de um pequeno senhor de terras, alcançou proeminência derrotando grandes e tradicionais daimyõs, tomou a capital Kyoto e se fez shõgun (general supremo, governante de fato do Japão) em 1568. Em termos de eficiência em batalha, as armas de fogo superavam as melhores espadas e os melhores espadachins. Em 1588, Hideyoshi Toyotomi, um general de Oda, fez publicar o Kataná-gari, édito que proibiu a todos os que não fossem membros do bushi (classe guerreira) a posse ou porte da espada. A partir de então, a kataná tornou-se sinônimo de samurai, enquanto as armas de fogo só eram usadas por plebeus.
Quando Ieyasu Tokugawa, outro general de Oda, unifica o país e toma o poder em 1603 assumindo o título de shõgun, inicia-se no Japão um período de paz interna, marcado por uma crescente política isolacionista do resto do mundo, e a ascenção da classe samurai ao governo e ao topo da pirâmide social. Neste período, conhecido como Era Edo (1603-1867), o governo xogunal exercido por descendentes de Tokugawa passaram a restringir a fabricação e o uso de armas de fogo, a ponto de praticamente tirá-las de circulação. Paralelamente a essas medidas, tornou-se crescente a política de valorização da kataná.
O conceito da kataná como "alma do samurai" tem suas raízes no início do xogunato Tokugawa. Embora culturalmente sempre tenha havido uma reverência pela espada, a ídéia de "alma" adveio de uma necessidade do governo de dar presentes de alto valor para nobres e líderes aliados. Séculos antes, tais presentes seriam concessões de terras, mas nos tempos do xogunato as terras existentes já tinham proprietários e novos territórios, num arquipélago, eram quase impossíveis de se obter. Katanás de qualidade e de acabamento artístico passaram a ser manufaturadas com tal finalidade. Espadas antigas, de alta qualidade e feitas por artesãos renomados, passaram a ser consideradas presentes extremamente especiais, reservadas a membros da família do shõgun. Nesta época surge a arte do kantei: a habilidade de avaliar uma espada de acordo com a época que foi feita, o fabricante e a qualidade, bem como a de apreciar suas características e mínimos detalhes, como as variações de ondulação e brilho da hada, têmpera da lâmina que se assemelha visualmente ao cerne de madeira de lei.
Visando se manter indefinidamente no poder, o clã Tokugawa interveio em todos os aspectos da vida na sociedade japonesa por meio de leis, impôs regras de etiqueta na corte em Edo, e patrocinou publicações para serem adotadas no ensino e treinamento dos samurais. Num período sem guerras, os samurais tornaram-se fundamentalmente funcionários públicos e burocratas, e apenas num sistema que privilegiasse a obediência cega os Tokugawa conseguiriam alguma fidelidade dos samurais e se manteriam no poder. Foi sob tais circunstâncias históricas que nasceu o Bushido (O Caminho do Guerreiro).
Assim, a espada ganhou enorme função simbólica na sociedade japonesa. Símbolo da classe dominante, ela impunha às pessoas comuns mais medo que respeito pelos samurais, uma vez que estes tinham literalmente licença para matar de imediato qualquer popular que eles entendessem ter agido desrespeitosamente. Na etiqueta palaciana, o modo pelo qual se portava ou segurava a espada podia ser entendido como um ato de traição punível com a morte. Por ter apenas desembainhado sua espada no palácio do shõgun em 1701, embora diante de grave e desonesta provocação de um inimigo, Naganori Asano, daimyõ do feudo de Akõ, foi condenado a cometer seppuku (suicídio ritual). Mesmo destituídos de mestre e desonrados, ex-samurais de Asano se uniram num engenhoso plano e mataram o homem responsável pela morte de seu mestre, passando para a história como os heróis da Akõgishi (Crônicas dos Bravos de Akõ), conhecida na dramaturgia japonesa como Chûshingura (O Tesouro dos Leais Servidores), ou "Os 47 Ronins".
O BANIMENTO DA KATANÁ
Ao longo do século XIX, o Japão sofreu fortes pressões das potências ocidentais para abrir seus portos, até que finalmente o governo Tokugawa entrou em colapso. Após uma guerra civil entre defensores do isolacionismo xogunal e dos que queriam a restauração do poder ao imperador, com a abertura do Japão ao ocidente, adveio a chamada Era Meiji (1868-1912).
Entretanto, não se mudam hábitos e valores de séculos do dia para a noite, e houve resistência dos samurais, mesmo diante da derrota na guerra civil e da irreversível modernização do país. Em 1876, o imperador Meiji baixou o édito Haitorei, que proibiu a todos indistintamente o porte de armas de fogo e e armas brancas. Proibidos de portar suas espadas, os samurais passaram à condição de cidadãos comuns, e do dia para a noite a atividade de produção de katanás foi cortada a zero. A maioria dos alfagemes foram obrigados a sobreviver de outras atividades; alguns poucos passaram a produzir tesouras, facas de cozinha e ferramentas de corte para marcenaria (áreas nas quais curiosamente o Japão até hoje é internacionalmente reconhecido por sua alta qualidade). Tamanho foi o descontentamento e decepção dos samurais com o Haitorei, que em 1877 uma rebelião liderada por Takamori Saigo, samurai que durante a guerra civil apoiou a restauração imperial e foi um dos líderes intelectuais do novo governo, reuniu milhares de samurais em Kagoshima, sul do Japão. Armadas com modernas armas de fogo, tropas imperiais sufocaram a rebelião e Saigo cometeu suicídio ritual.
Posteriormente, à medida que a militarização cresceu no Japão avançando pelo século XX, a necessidade de armar soldados com espadas retomou a produção, mas a quantidade requereu fabricação industrial. As katanás "Tipo 94" e "Tipo 95", feitas para oficiais do exército e da marinha até a 2ª Guerra Mundial, pareciam-se com katanás tradicionais, mas eram feitas de uma única placa metal industrializado, recebendo um número de série ao invés da assinatura de um artesão. Houve, felizmente, alguns indivíduos que procuraram preservar a manufatura tradicional com acabamento artístico neste período infeliz, como os membros da família Gassan. Um deles, Sadakatsu Gassan, chegou a receber o prestigioso título de "Tesouro (ou Patrimônio) Vivo Nacional", dado a artistas que contribuiram sobremaneira à identidade japonesa.
Com a derrota na 2ª Guerra, e sob o governo de ocupação americano (1945-1952), as forças armadas japonesas foram dissolvidas e a produção de katanás, que devido ao conflito adquiriram a imagem de "arma maligna símbolo do inimigo", foi proibida e adotaram-se medidas para recolher todas as espadas que estivessem em posse da população, a fim de destruí-las. Diante de tal situação, um senhor chamado Junji Honma pediu uma audiência pessoal com o comandante do governo de ocupação, o general Douglas MacArthur. Neste encontro, o professor Honma apresentou ao general várias espadas japonesas de diferentes períodos históricos, e rapidamente MacArthur aprendeu a diferenciar uma espada de valor artístico de uma mera espada utilitária. Graças a esta reunião, muitas espadas foram salvas da destruição, e o general amenizou as medidas de destruição de espadas limitando-as às guntõ ("espadas das forças armadas", katanás produzidas em série), permitindo que espadas de valor artístico pudessem ser preservadas e possuidas por particulares. Mesmo assim, muitas katanás foram vendidas a soldados americanos, que as compravam por uma ninharia. Outras, como ocorre em tempos de guerra, foram roubadas. Outras foram escondidas pela população, e assim permanecem. Por esta razão, há mais katanás hoje nos Estados Unidos que no Japão - cerca de um milhão de espadas - a maioria guntõ tiradas de soldados japoneses mortos na guerra .
No pós-guerra o prof. Honma fundou a Nippon Bijutsu Tõken Hozon Kyõkai (Sociedade Para a Preservação das Espadas Artísticas do Japão), em torno da qual reuniram-se os poucos alfagemes e especialistas que hoje se dedicam a preservar a arte e a tradição das espadas japonesas. Mas boa parte do esforço da entidade está em divulgar a espada japonesa, mesmo para os japoneses. Calcula-se que não mais de 1% dos japoneses atualmente tenha visto ou empunhado uma kataná tradicional legítima. Uma série de motivos cercou a espada japonesa de rituais e etiqueta, que levam a restringir sua exibição a estranhos que não sejam seus possuidores, dificultando mais ainda que as pessoas tenham algum conhecimento do assunto e preservem sua tradição. Somente a partir da criação da Nippon Bijutsu Tõken Hozon Kyõkai, devidamente autorizada pelas forças de ocupação e reconhecida pelo governo japonês, que estudiosos e conhecedores da nihontõ puderam ter acesso a coleções particulares e realizar exposições.
Atualmente fabricam-se versões industrializadas e baratas de katanás sem corte, para mera decoração ou para prática esportiva de artes marciais. A maioria das vendidas no ocidente são feitas na China. Imitações produzidas em série, tais espadas carecem de acabamento artesanal ou artístico e são pouco resistentes, podendo facilmente quebrar-se ao receber o golpe de outra kataná.
PROCESSO DE MANUFATURA DE UMA KATANÁ
Antigamente, o processo de manufatura de uma espada era considerado um ato sagrado, um ritual religioso. Mestres alfagemes eram, via de regra, monges ou seguidores da seita Yamabushi (seita asceta de origem xintoísta, posteriormente absorvida por escolas budistas), ou da Shugendõ (seita derivada da Yamabushi, também conhecida como "budismo de montanha"). Antes de começar a forjar uma espada, esses artesãos realizavam ritos de purificação corporal, e abstinham-se de saquê e de sexo enquanto a espada não fosse terminada. Eles acreditavam que kamis (espíritos, deuses) os inspiravam e os acompanhavam no processo, e por isso cada espada tornava-se "moradia" de um espírito quando terminada.
Após a 2ª Guerra Mundial, muito do conhecimento da fabricação tradicional artesanal da kataná se perdeu. Atualmente, por iniciativas individuais de apreciadores que se dedicam à recuperação de tais técnicas, alguns artífices retomaram a manufatura tradicional de katanás pesquisando antigos escritos e ilustrações ainda existentes sobre o assunto. Arami Meizukushi, um tratado sobre espadas escrito por Hakuryûshi (pseudônimo de Katsuhisa Kanda) em 1712, virou obra de referência. Artigos escritos por Munetsugu, mestre alfageme que viveu no século XIX e viajou por todo o Japão ensinando sua arte, gerando uma onda de produção de katanás hoje chamada de Movimento da Shin-shintõ (novíssima espada japonesa), formam um evangelho para os modernos artesãos. A criação da Nippon Bijutsu Tõken Hozon Kyõkai (Sociedade Para a Preservação das Espadas Artísticas do Japão) centralizou tais esforços, e mantém a missão de divulgar e preservar espadas e técnicas tradicionais de produção.
Tanto antigamente como hoje, uma kataná tradicional é basicamente feita com três instrumentos rudimentares: uma tenaz, um malho e uma bigorna. O processo baseia-se no antigo método chinês de aquecer, dobrar e achatar o metal repetidas vezes, até conseguir dar a forma que se deseja ao metal. Apesar de ser um trabalho fisicamente estressante, sujo e em ambiente quente, os ferreiros japoneses vestem-se de branco.
O que dá à kataná sua especial característica de resistência - praticamente inquebrável e capaz de cortar o cano de uma metralhadora - está no uso de dois tipos de metal fundidos numa só lâmina. Primeiramente aquece-se, bate-se e molda-se o "miolo" da lâmina com um metal mais "mole", e numa segunda etapa, acrescenta-se uma capa de metal mais "duro", que ficará na parte externa. Repete-se o processo de aquecer, bater e moldar quantas vezes forem necessárias o "sanduíche" de metais de diferentes resistências, até se obter uma única lâmina. Blocos de metais de diferentes resistências são basicamente obtidos variando-se a quantidade de ferro e carbono na composição de cada bloco. A "dura" área externa da lâmina é ideal para ser polida e e afiada. O interior "mole" absorve o impacto que a lâmina recebe ao se chocar com outra área dura, evitando que ela se parta.
A diferença de composição das ligas de metal é crucial na formação da curvatura da kataná. Embora o alfageme molde a lâmina enquanto o metal está quente, o formato preciso desejado pelo artesão só será obtido no súbito resfriamento final, quando ele mergulhar a lâmina em água. Antes de resfriar a lâmina, ele passa argila onde ela será afiada, e o modo pelo qual ele mergulha a lâmina na água define se a lâmina se tornará uma espada, ou se o artesão precisará recomeçar o trabalho do zero. A diferença de composição dos metais no interior e no exterior da lâmina faz com que, no resfriamento, a lâmina se contraia e produza a forma final da curvatura. Neste instante, é comum que a lâmina sofra rachaduras, ou fique com uma curvatura incorreta ou indesejada, e o trabalho seja perdido. Em média, 5 lâminas são descartadas, e na sexta tentativa é que o artesão consegue aquela que irá finalmente tornar-se uma espada, o que torna todo o processo demorado (que varia de horas a semanas). Na área que foi coberta com argila, aparecem as primeiras formas da hada (têmpera ondulada). O uso de metais de diferentes resistências na moldagem da lâmina e o modo de encurvar a lâmina são processos desenvolvidos pela metalurgia tradicional japonesa.
A lâmina produzida pelo alfageme vai em seguida para outro especialista: o polidor. Usando apenas pedras para polir e afiar e as próprias mãos, o polidor exaustivamente esfrega a lâmina até obter o máximo de seu brilho e dar-lhe um corte afiado como o de uma navalha. Nas mãos dele os detalhes da hada virão à tona no máximo de seu esplendor. Finalmente, a lâmina estará pronta para ir para outro mestre: o montador. Verdadeiro artista, o montador não apenas faz o acabamento da lâmina, montando os acessórios fabricados pelo alfageme já devidamente limpos pelo polidor, como irá preparar a empunhadura com fitas de tecido resistentes habilmente trançadas e pequenas peças decorativas em bronze, osso ou marfim (algumas dessas peças são amuletos). Por fim, é feita a peça maior do montador: a saya (bainha). Feita em couro ou madeira, encerada ou laqueada, a saya é feita para acondicionar a kataná e seus acessórios com precisão, de tal modo que cada saya serve apenas para a kataná para a qual ela foi feita. Entre polimento e montagem, é comum que se demore mais 3 ou 4 semanas.
Finalmente, a kataná pronta volta ao alfageme, que fará a análise final para certificar-se de que a espada atende suas expectativas. Aprovada, a espada está apta a receber a mei, a assinatura do artesão (quando a espada não é assinada, ela é chamada de mumei kataná, "espada sem assinatura"). Após um ritual para purificar e consagrar a nova espada, ela está pronta para cumprir seu destino, seja qual ele for.
TIPOS DE ESPADAS JAPONESAS

A grande maioria das espadas japonesas legítimas foi feita artesanalmente e sob encomenda, adequando-se a características e necessidades pessoais. Isso faz com que nenhuma espada seja exatamente igual a outra, e que nenhuma padronização de medidas tenha sido aplicada com absoluta precisão, mesmo quando houve produção maciça de katanás.
Espadas japonesas são medidas em unidades de shaku (1 shaku mede aproximadamente 30,3 centímetros), ou 10/33 metros. Também existem as medidas sun (um décimo de shaku), bu (um centésimo de shaku) e rin (um milésimo de shaku).
- Chisa-kataná: é uma kataná média, medindo entre 60 e 70 cm (um pouco mais longo que a wakizashi, mas mais curto que a kataná).
- Daitõ: nome que se dá a qualquer espada longa, com lâmina medindo mais de 2 shaku (mais de 60 cm).
- Daisho: nome que se dá ao conjunto de uma kataná com uma wakizashi (duas espadas de samurai similares, diferentes apenas no comprimento).
- Kataná: espada curva com ponta em forma de cunha, empunhadura longa para duas mãos e lâmina comprida com corte unilateral, medidindo em média de 60 a 70 cm, podendo ser mais longa. Ideal para rápidos golpes de corte e resistente, foi adotada pela classe guerreira (bushi).
- Kodachi: é a tachi curta, com lâmina que mede mais de 1 shaku e menos de 2 (entre 30 e 60 cm).
- Kozuka: pequena e fina faca utilitária, feita para se encaixar entre a saya (bainha) e a tsuba (guarda, placa redonda chata e vazada para proteger as mãos) de uma kataná. Seu cabo trabalhado serve de complemento decorativo da saya.
- Naginata: espada curta montada num cabo longo, lança. Também chamada de yari.
- Nodachi: kataná extraordinariamente longa, chegando a medir 3 shaku (90 cm), que é carregada nas costas. É o mesmo que õdachi.
- Sai: tridente com lâmina central mais longa que as lâminas laterais, usada para deter golpes de um adversário com uma kataná. Dela deriva o jitte, cassetete fino de metal sem ponta viva, com um gancho no lugar do copo da empunhadura, usada por policiais na Era Edo (1603-1867).
- Shotõ: nome que se dá a qualquer espada curta, com lâmina medindo mais de 1 shaku e menos de 2 (entre 30 e 60 cm).
- Tachi: refinada espada pronunciadamente encurvada de ponta dupla, com corte de um só lado da lâmina. Longa (75cm em média), usada pendurada por correntes com uma cinta, esse tipo de espada foi adotada pela alta aristocracia a partir do séc. VII.
- Tantõ: adaga; lâmina com menos de 1 shaku (30 cm). Usada em suicídio ritual.
- Tsurugi: espada de dois gumes e ponta dupla, similar às espadas ocidentais antigas, feita no Japão na Antigüidade. Seu formato e forma de fabricação baseavam-se em modelos e técnicas da China.
- Wakizashi: é a kataná curta, medindo de 30 a 60 cm.
CLASSIFICAÇÃO HISTÓRICA DAS ESPADAS JAPONESAS
Espadas japonesas, de acordo com a época em que foram produzidas, são classificadas nos períodos abaixo descritos. Há porém discrepâncias entre as datas exatas do período de abrangência de tais períodos, que variam de acordo com a fonte de informação ou autor. A classificação a seguir consta da "Japan Encyclopedia" de Louis Fréderic, publicada pela Universidade de Harvard.
- Jokotõ: "espada antiga"; engloba espadas manufaturadas até meados da Era Heian (794 -1192), por volta do ano 900. Também é chamado de período Chokutõ.
- Kotõ: "espada velha"; espadas feitas entre o ano 900 até o final da Era Muromachi (1333-1573)
- Shintõ: "espada nova"; as que foram manufaturadas do início da Era Azuchi-Momoyama (1574-1603) a meados da Era Edo (1603-1867), por volta de 1804.
- Shin-shintõ: "espada novíssima", ou "espada moderna"; classificação genérica para todas as espadas feitas a partir de 1804.
- Fukkõtõ: "espada do ressurgimento"; especifica espadas feitas de 1804 ao fim da Era Edo (1867).
- Kyûshintõ: espadas feitas do início da Era Meiji (1868-1912) a 1937, quando se inicia a intervenção na China, ano que os japoneses consideram o início da 2ª Guerra.
- Shinguntõ: "espada do exército"; feitas de 1937 a 1945 (fim da 2ª Guerra Mundial) para o exército.
- Kaiguntõ: "espada da marinha"; feitas de 1937 a 1945 (fim da 2ª Guerra Mundial) para a marinha.
(obs.: tanto as "espadas do exército" como as "espadas da marinha" são classificadas genericamente como Guntõ, "espadas das forças armadas")

A FONTE www.culturajaponesa.com.br /katana - Cristiane A. Sato

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Apresentação na Uniguaçu primavera de 2009

História da Katana

A espada foi a arma mais usada no Japão medieval, principalmente após sua unificação pelo Shogun Tokugawa Ieyasu (início do séc XVII), período de muitos duelos entre samurais. Tão grande era sua importância que foi declarada privilégio exclusivo da classe guerreira em 1588. “A espada é a alma do samurai”, disse Tokugawa Ieyasu.
Um samurai era facilmente reconhecido pelas ruas por portar duas espadas presas ao obi, uma longa, a Katana (de 60 a 90 cm), usada nas lutas em locais amplos, e uma menor, a Wakisashi (de 30 a 60 cm), para espaços fechados (castelos, florestas). O Daishô, nome dado ao conjunto, representava o estatuto máximo dos samurais, simbolizando o orgulho e emblema do guerreiro. Havia uma terceira arma, o Tanto, uma faca fina que ficava escondida e era usada só em emergências.

A história da Katana está ligada à história do Japão e ao desenvolvimento das técnicas de luta. Sua denominação muda conforme o período ao qual as peças pertencem.

Jokoto ano 795
Koto (espadas antigas) 795-1596
Shinto (espadas novas) 1596-1624
Gendaito (espadas contemporâneas) 1876-1953

Jokoto
Durante o período Jokoto (800 d.C.), as espadas usadas eram retas, com fio simples (a Chokuto) ou duplo (Ken) e pobremente temperadas. Não havia um desenho padrão e eram atadas à cintura por meio de cordas. Evidências históricas sugerem que elas eram feitas por artesãos chineses e coreanos que trabalhavam no Japão.

Koto
A partir do período Heian (794-1185), surge o termo Nipponto ou Nihonto, que significava “espada japonesa” (nippon=japão, to=espada). A mudança no estilo de luta criou a necessidade de alteração no seu formato. Não se guerreava mais a pé, mas sim a cavalo. As espadas tornaram-se longas, curvadas, com uma base mais larga e forte e uma ponta bem fina. As espadas desta época são chamadas de Tachi e representam a categoria das antigas espadas ou Koto.
Neste período, as inscrições nas espadas derivavam, de motivos budistas, representando a forte ligação do cuteleiro com a religião e com seu trabalho. Foi criado o método de forjar com a superfície extremamente dura e o núcleo macio.
O período Kamakura (1185-1333), com o Japão sob domínio da classe guerreira, foi considerado a época de ouro da espada japonesa. Muitas espadas consideradas tesouro nacional foram produzidas neste período.
A Katana (a clássica arma dos samurais) surgiu no período Muromachi. Com os feudos em guerra, enquanto os exércitos cresciam, os soldados a cavalo se tornavam mais raros e a força principal vinha daqueles que combatiam a pé. Variando entre 60 a 90 cm no comprimento e com lâmina de largura uniforme, eram mais fáceis de carregar e mais rápidas para sacar.

Shinto
Era Edo. Iniciou-se o governo de Tokugawa e, apesar das armas de fogo já fazerem parte do armamento dos exércitos, as espadas ainda eram produzidas e de forma ainda mais refinada, com a matéria-prima mais acessível e a troca de experiência entre os cuteleiros que passaram a viajar com os exércitos.
A espadas deste período são conhecidas como espadas novas.
Esta fase foi curta, pois com a unificação interna do Japão, foi instituída uma lei proibindo o porte de espadas pelos samurais. Soma-se a isto a inflação e a queda na qualidade do aço produzido, piorando a qualidade das espadas.

Gendaito
Espadas feitas a partir da era Meiji são chamadas de espadas modernas ou Gendaito. Estas foram feitas na maior parte para os oficiais militares japoneses, para rituais e ocasiões públicas. Apesar de possuírem as mesmas formas de uma espada tradicional, não tinham as características principais do artesanato (feito a mão) e do aço não industrial.




Shinken Katana - A alma do samurai






Katana (pronuncia-se "cataNA", palavra oxítona) é o sabre longo japonês. Surgida no período Muromachi, era a arma padrão dos samurais e também dos ninjas para a prática do kenjutsu, a arte de manejar a espada. Tem gume apenas de um lado, e sua lâmina é ligeiramente curva. Era usada tradicionalmente pelos samurais, acompanhada da wakizashi. A katana era usado em campo aberto, enquanto a wakizashi servia para combate no interior de edifícios, apesar de samurais mais habilidosos usar ambas ao mesmo tempo, uma em cada mão, como o lendário Miyamoto Musashi. O conjunto das duas armas chama-se daisho, literalmente "grande e pequeno", e podia ser usado apenas pelos samurais, representando seu prestígio social e honra pessoal. A difereça entre a katana ninja (Ninja-to) e a katana samurai se da na sua forma, sendo que a ninja tem forma reta e ponta também reta, tendo a lâmina não tão afiada (em razão da pratica do "doku no jutsu" - envenenamento), já a samurai possui uma leve curvatura e ponta semi-curva, muito bem afiada. Isso se dá a diferença de que o ninja carrega sua espada nas costas, portanto um corte vertical de cima para baixo, e o samurai levar sua espada na altura da cintura realizando um corte transversal de baixo para cima ou horizontal.
A espada Katana era muito mais que uma arma, para um samurai, era a extensão de seu corpo de sua mente. Forjadas em seus detalhes cuidadosamente, desde a ponta, até a curvatura da lâmina eram trabalhadas totalmente mão. Assim, os samurais virtuosos e honrados faziam de sua espada uma filosofia de vida. Para o samurai, a espada não era apenas um instrumento de matar pessoas, mas sim uma forma de fazer a justiça e ajudar as pessoas. A espada ultrapassava seu sentido material; simbolicamente, era como um instrumento capaz de "cortar" as impurezas da mente. Além da katana, os samurais portavam um outras espada menor, o Wakizashi. Alguns a usavam para lugares menores, outros usavam-na simultaneamente com a katana dependendo do estilo de luta do samurai. Alguns carregavam um faca para emergências.
Havia ainda um sabre pequeno, chamado tantô. Esta era utilizada não apenas para combates, mas também para o ritual do seppuku (suicídio ritual). A diferença básica entre as três era o tamanho, tendo a katana um comprimento de 60 ~ 90 cm de lâmina (hamon); a wakizashi entre 30 ~ 60 cm; e o tantô com comprimento de cerca de 30cm. Cada espadachim escolhia as espadas de acordo com as suas preferências, tanto em termos de forja quanto em termos de comprimento e curvatura da lâmina.
As medidas das espadas japonesas são referenciadas em shaku (equivalente a 30cm). Qualquer lâmina menor que um shaku é considerada uma tanto, se o comprimento da lâmina for entre um e dois shaku então ela é considerada como uma shoto (é a categoria da wakizachi e kodachi). Se a lâmina possuir um comprimento maior que dois shaku, então ela é considerada como uma katana. Ainda, se a lãmina tiver de quatro a cinco shaku, ela é considerada uma Masamune (katana de três punhos)
Afora estes, existem muitas outras variantes de sabres japoneses.

Esquema de uma katana
Kenjutsu, Kendo, Iaidô e Iaijutsu são as artes marciais comumente associadas ao manejo da katana.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O Fluxo de KI, por Kisshomaru Ueshiba

Ki é um dos difíceis conceitos do pensamento oriental, o qual tem contribuído para o alto padrão da filosofia que nós na Ásia temos herdado de nosso passado ancestral.

Nossos ancestrais acreditavam que ki era a pró vida. Este é o caminho para concentrar a força da vida ou o poder do espírito. Mesmo nos dias de hoje nós usamos muitas palavras que refletem esta herança. Por exemplo, nós sentimos que nada pode ser realizado por uma pessoa que tiver o seu ki caído, desespiritualizado, ou se seu ki definha, estar em baixo espírito. A doença em japonês pode ser literalmente lida como doença do ki e é assim que está ligada em nossas mentes com a morte.

Quando é possível ativar livremente e exibir o máximo do ki qualquer ser humano possui, este leva a um inesperado e forte poder. Ele também permite viver mais livre e mais vigorosamente a vida. Aqui repousa o significado da existência do Aikido. Quando corretamente treinado, uma pessoa torna-se hábil para manifestar seu ki livremente.

Afim de dominar este sentimento, o ki, que é o conteúdo do poder da respiração humana, e o ki original, que é onipresente no universo, devem estar em concordância. A característica que distingue os movimentos do Aikido é que eles harmonizam-se com a ordem do universo e ajustam-se espontaneamente a suas mundanças, por isso em Aikido um treino com o objetivo de conceber a unificação do ki individual com o ki do universo é feito pela alimentação kokyuryoku, o poder da respiração. Quando este poder da respiração é expandido para todas as partes do corpo e enviado para fora diretamente por ambas as facas das mãos, as técnicas do Aikido tornam-se ativas e mostram seu completo valor. Isto leva uma pessoa a tornar-se una com a totalidade da natureza.

É impossível executar a forma da Mãe Natureza em si mesmo se seus movimentos estão aprisionados dentro do ego. O oponente deve ser guiado e feito uno com seus movimentos, enquanto você permanece no estado de espírito que é freqüentemente chamado o domínio do não eu. É aqui que se sente o fluxo vivo do ki. Quando alguém está habilitado a dominar as técnicas Aiki de tal modo que ela fica livre e fluente em seu comando, o adversário poderá ser movido para qualquer lado que se queira por meio do fluxo vivo de ki. Ele terá aprendido a respirar o fluxo de ki do oponente dentro da sua própria respiração e poderá controlá-lo através desta unidade antes do que pela oposição.

Este uso correto do Fluxo do Ki pode ser somente dominado através do treinamento constante do Aikido e pelo uso correto da força da respiração. Assim nós podemos definir o fluxo de ki como sendo o estado no qual a totalidade da força vital que está distribuída para qualquer se humano está sendo demonstrada na mais completa emanação possível.

domingo, 27 de setembro de 2009

BUSHIDO - O CÓDIGO

I. Honestidade e Justiça – GI
Ser extremamente honesto em todos os contatos com todas as pessoas. Acreditar na justiça, não naquela vinda de outras pessoas, mas de você mesmo. Para os verdadeiros samurais, não existem meios tons, mas questões envolvendo honestidade e justiça.
Só existe o certo e o errado.

II. Cortesia e Polidez – REI
Os samurais não têm razão para serem cruéis. Eles não precisam provar sua força. Um samurai é cortês mesmo com seus inimigos. Sem essa manifestação externa de respeito, não somos mais do que animais. Um samurai é respeitado não só por sua força na batalha, mas também pelo modo como lida com os outros homens.
A verdadeira força interior do samurai fica evidente nas horas difíceis.

III. Coragem heróica - YU
Estar acima das massas de homens que tem medo de agir. Esconder-se como uma tartaruga em seu casco não é viver de maneira alguma. Um samurai deve possuir uma coragem heróica. Esta é incondicionalmente arriscada. É perigosa, é viver a vida totalmente, completamente, maravilhosamente.
A coragem heróica não é cega ela é inteligente e forte.

IV. Honra – MEIYO
Um verdadeiro samurai só houve um juiz de sua honra, e este é ele mesmo. As decisões que toma e o modo como as executa são reflexo de quem você realmente é. Você não pode esconder-se de si mesmo.

V. Compaixão – JIN
Por meio de um treinamento intenso, o samurai se torna forte e rápido. Ele não é como os outros homens. Ele desenvolve um poder, deve ser usado para o bem de todos. Ele tem compaixão. Ele ajuda os outros homens em cada oportunidade. Caso uma oportunidade não surja, ele faz todo o possível para encontrar uma.

VI. Sinceridade completa – MAKOTO
Quando um samurai diz que desempenhara uma ação, pode considerar tal ação executada. Nada irá impedir de terminar aquilo que disse que irá fazer. Ele não tem de “dar sua palavra”. Ele não tem de “prometer”.
Falar e fazer são a mesma coisa.

VII. Dever e lealdade – CHU
Para o samurai ter feito alguma “coisa” ou dito alguma “coisa”, significa que tal “coisa” faz parte dele. Ele é responsável por ela e por suas conseqüências. Um samurai é imensamente leal àqueles que estão sob seus cuidados. Por aqueles pos quem é responsável ele permanece ardentemente fiel.